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Sensacionalismo. Ele não deve ser tão mal assim. A impressa exagera, precisa disso para se manter – pensava eu, embora, no fundo, não quisesse encontrá-lo.
Ele era temido por todos: era um matador. Cada um se protegia como podia. Os noticiários alertavam sobre seus sinais, e instruíam sobre como combatê-lo.
As vítimas se sucediam. As estatísticas eram alarmantes, porém, eu pensava, negligenciaram, pois se tivessem usado bem as armas, ele não teria tido grandes chances.
O matador era implacável, e não escolhia suas vítimas: Idosos, crianças, homens, e mulheres de bem, ocupados ou não, eram por ele atraídos, e covardemente atacados. Sim, covardemente, pois, ele quase não se dava a conhecer, atacava à surdina.
Possivelmente ele tinha consciência da sua fama, que crescia assustadoramente, como também crescia o número dos por ele vitimados. Não mudava de estratégia, combatia às cegas, e era terrível com todos que cruzavam os seus caminhos.
Uns poucos que o tinham visto, falavam da sua indumentária, e diziam que mais parecia uma fantasia. Não tinha porte de guerreiro, pois era tão franzino que mal podia se acreditar na sua valentia. Envergonhavam-se os homens, de serem por ele vencidos, e de toda estrutura que precisavam montar para livrarem-se do seu veneno.
Enquanto ele, naturalmente, circulava, e se movimentava disfarçado em sua fantasia. Era alheio ao que os homens arquitetavam. Sua natureza era essa, estava apenas cumprindo o seu papel. Não se comovia com as lágrimas, ou com as dores.
Tomei as precauções para me manter distante dele, já que a propaganda era tão alarmante. Certo dia, porém, nos encontramos. Gostaria de dizer, que quando o vi à minha frente, tremi nas bases, o sangue me fugiu das veias, petrifiquei, ou coisa assim, mas, não foi o que aconteceu. Ele é discreto, covarde, dissimulado, e atacou-me à traição. Não o vi. Não sei onde se deu o encontro. Não sei se invadi o território dele ou se ele invadiu o meu, só sei que nos encontramos, e que as conseqüências desse encontro foram dolorosas.
Eu já não tinha o mesmo pensamento de antes, agora, achava que a imprensa deveria enfatizar melhor a sua periculosidade, pois, ele era realmente um terror. E o pior, era invisível. Dificultava o combate.
Naqueles dias após o nosso encontro, prostrei-me, impossibilitada de executar qualquer atividade. Minhas articulações enrijeceram, a temperatura oscilava, a pele queimava, as dores se sucediam... No meu leito de dor, eu apenas murmurava, e não conseguia comer com gosto os alimentos, isso quando pelo menos conseguia comer. Água, muita água, era o que me conferia certo alívio, pois, amenizava o fogo que me consumia. Escapei. Estropiada, mas escapei.
Passei a temer-lhe como o diabo da cruz, e de tudo fiz para evitar novo encontro, porém, ele de novo me achou, e mais uma vez, caí em sua cilada. Novo terror, nova dor, e agora um medo desmedido, pois, dizia-se que, ninguém escapava dele no terceiro golpe.
O terceiro golpe não aconteceu, pelo menos até agora, todavia, só de pensar em me deparar de novo com ele, tremo nas bases, pois, o minúsculo mosquito da dengue, é uma arma mortífera.
Por Socorro Melo
Projeto Cata-Vento
Por Socorro Melo
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