Com vinte e poucos anos resolvi fazer aulas de violão. Comecei com toda euforia que se possa imaginar. E me sentia o último biscoito do pacote, ao transportar o violão pela rua, a caminho da escola de música. Ouvir os repetidos sons, inúmeras vezes, tentando acertar cada nota musical, era como se ouvisse uma sinfonia, e já planejava os meus shows, e já me deleitava com a minha arte.
Porém (porém?)... Com o passar dos dias, e com o grau de dificuldade que ia surgindo, fui me retraindo. Chegava à casa cansada, deitava um pouco... Mesmo assim não negligenciava, e, minutos depois, me abraçava ao violão, para o treinamento diário. As lições eram repetitivas, e isso foi me irritando... Eu dedilhava tanto, e o que eu ouvia não era satisfatório, só aquele barulho chato, isolado, de cada nota musical.
Permaneci ainda por alguns meses na escola. Particularmente eu não via progresso algum, mas o professor me dizia que eu ia muito bem: até chegar às lições com pestana. Na verdade, nem lembro mais da linguagem técnica a ser utilizada para me referir a isso.
Eu já conseguia tocar duas músicas, apesar da dificuldade, mas quem as ouvisse, saberia distinguí-las. Entretanto, com o advento da pestana, meu mundo caiu. Era um terror. A posição acertada era pressionar e segurar todas as cordas do violão na pestana, se não me falha a memória, com o dedo indicador, e depois dedilhar as cordas, de acordo com as notas.
Aos que tocam violão, e conhecem os procedimentos e as técnicas, peço desculpas, pela descrição grosseira - típica de quem não sabe de nada.
E assim, fui me torturando, dia após dia, na esperança de, por um grande milagre, conseguir fazer a pestana de forma correta. O meu indicador se recusava a colaborar. Por mais que eu o exercitasse ele não progredia. Encurvava-se totalmente ante as cordas do violão, e eu me entristecia cada vez mais, e via desaparecer a euforia e a vontade de aprender.
Não sentia mais vontade de treinar, e só de olhar para o violão, sentia-me acuada, incompetente... E pensei: preciso cancelar meus shows. E isto significava abandonar minhas aulas, pois, constatara que não tinha a menor vocação, assim como também não tenho para tantas outras coisas.
Não me frustrei. Os momentos mágicos, ao som de voz e violão, eu poderia desfrutar mediante o talento de outras pessoas. A música é sublime. É um dom maravilhoso, e quem não recebe de Deus esse talento, até pode tentar se inserir no meio, mas, dificilmente será um bom artista.
Brinco quando digo que pensei em shows, era apenas o meu sonho de aprender arrancar daquele aparelho acordes harmoniosos, ou quem sabe, arrancar de mim algum talento escondido, mas, cheguei à conclusão, de que se estava escondido era num lugar ignorado, num recôndito, onde talvez numa vida superior, me seja dada a chance de encontrá-lo, não aqui, não agora...
E confesso que o violão me deu duas grandes alegrias: a primeira, quando o recebi, cheia de entusiasmo, para iniciar as aulas, e a segunda, quando o devolvi, livrando-me do pesadelo da pestana, com o que eu até sonhava, e mesmo em sonhos, nunca consegui bom desempenho.
Por Socorro Melo







