Pegadas de Jesus

Pegadas de Jesus

sábado, 2 de novembro de 2013

O JANGADEIRO


Meus familiares se animaram, vendo a experiência das outras pessoas que atravessaram o rio, com a água na altura do pescoço, e resolveram atravessar também, porém, existia um grande empecilho: eu. Eu devia ter uns oito anos naquela ocasião. Então, de comum acordo, resolveram que a minha travessia seria de jangada. Eu, ainda agarrada na saia da minha mãe, tremendo de medo por mim e por eles, desatei a chorar. Não queria ir na jangada, sozinha, sem a minha mãe. E não concordava que ela enfrentasse aquele rio impiedoso. O jangadeiro, vendo meu dilema, reforçou as palavras de minha mãe: não há o que temer as águas já baixaram... E se elas voltarem? – perguntei. Não voltam mais, elas estão indo para o mar. – E se vierem outras? – Insisti. Faremos nossa passagem bem rápida, falou o jangadeiro, não dá tempo de elas nos alcançarem. Senti tanta firmeza nas palavras daquele homem. Ele me transmitiu tanta segurança, que até aquele instante,  só minha mãe tinha o dom de fazê-lo. Então fui. O jangadeiro, que era um conhecido da família, segurou minha mão, me pôs no colo, e me conduziu até a jangada. Fiz um pequeno escândalo quando ele alcançou o rio, pois, me parecia que ia nos tragar, e nos arrastar, como fizera com as árvores e o lixo, que eu vi descer tão rapidamente. Mamãe aproximou-se e tentou me acalmar.

Dai a instantes, estava eu sentada na jangada, que balançava sem parar. O frio era cortante, e comecei tremer  não sei se de frio, ou  se de medo.  O jangadeiro enrolou-me com uma lona, e disse para eu fechar os olhos, por um momento, que quando os abrisse, já estaríamos do outro lado. Não consegui seguir o seu conselho. Eu precisava ficar de olhos bem abertos para monitorar os passos de minha mãe, que desajeitadamente, com água acima da cintura, se debatia, juntamente com minha avó e tio, e outros passantes, que tentavam fazer a travessia, lutando contra a forte correnteza.
O jangadeiro via minha preocupação, e meu medo, e tentava me acalmar. Conduzia a embarcação com bastante habilidade, mas, vez em quando, uma lufada d’água vinha em nossa direção, por sorte a lona me protegia. Ele ria e fazia anedotas, e se dizia capitão de grande navio. Chamava-me de senhorita e perguntava se estava gostando da viagem, então eu sorri, e relaxei ouvindo as suas histórias mirabolantes.  Era um homem rude, como podia ter tanta habilidade para lidar com crianças, numa situação daquelas?  Não sei, só sei que me deixei absorver por suas histórias, e de repente já me via aportando do outro lado do mundo, segundo ele. E pra minha surpresa, o outro lado do mundo era a nossa margem de destino. Quando me retirou da jangada, olhou pra mim e disse: viu? Chegamos são e salvos. Eu sou ou não sou um bom capitão? Balancei a cabeça afirmativamente, sorri, e fui ao encontro dos outros que se aproximavam.


 (Socorro Melo, Projeto Cata-Vento).

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

QUE OUSADIA!


Já pretendi mudar o mundo (que ousadia)! Tentei entender sua política, sistemas e ideologias, mas, me decepcionei... Percebi, então, que melhorando a mim mesma a cada dia, estou contribuindo, inevitavelmente, para a construção de um mundo melhor.

Socorro Melo

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

SAUDADES

Penso sempre naquele menino, que teve impedida a sua caminhada... Dono de um belo rosto, e de um sorriso encantador. Era alegre, sapeca, destemido, desafiador.
Meu amiguinho só tinha doze anos. Passou meses travando uma luta ferrenha contra o câncer. Foi valente, mas, perdeu a batalha. Uma perda que me marcou profundamente. Por dias pensei na efemeridade da vida, no porquê de mortes assim, tão prematuras.
Já faz tanto tempo. Hoje ele seria um homem. Mas, continua vivo no meu coração, porque a morte não tem o poder de destruir o amor.

Socorro Melo

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

SERÁ POSSÍVEL?

Ambiente de pobreza não significa necessariamente ambiente de infelicidade. O que torna o ambiente hostil é o mau exemplo. Como dói saber que existem pais, que são desonestos, e ainda compartilham dessa desventura com os filhos.

Socorro Melo

domingo, 20 de outubro de 2013

PENSE NISSO


A enfermidade, que tanto tememos, é uma possibilidade singular de encontro com Deus. Diante dela, dissipam-se todas as ilusões, e passamos a enxergar a dimensão espiritual da vida.

Socorro Melo

terça-feira, 15 de outubro de 2013

ESTAMPIDO


Como descrever o que senti? Não encontro palavras que o façam fielmente, mas, vou tentar.
Contei com o elemento surpresa, que não sei se foi positivo ou negativo. Entanto, convenhamos que tenha sido positivo.

A sensação foi horrenda. Nunca havia sentido nada igual. Sabe o que é se sentir no olho do furacão? Penso que deve ser assim.

Estava eu feliz, serena, prestando atenção em algo importante, de valor inigualável, quando de repente, ouviu-se um estampido, atemorizante, ensurdecedor...

Fui tomada por uma sensação de morte. Elevei as mãos à cabeça, instintivamente, e tinha certeza de que a mesma iria se abrir em duas bandas, qual melancia talhada. Tapei os ouvidos, olhei desnorteada à minha volta, abismada, esperando o sangue escorrer por entre os meus dedos. Era o fim. Senti nas mãos, que dos cabelos se desprendia um pó escuro, e fiquei no aguardo do líquido viscoso, que felizmente não veio. Foram minutos intermináveis.

Penso que as vibrações atingiram o máximo de dB(decíbeis) que um ser humano pode suportar... 
Por instantes houve uma chacoalhada dentro da minha cabeça, onde parecia que se chocavam cartilagem, escafa, tímpano, martelo, bigorna, estribo, cóclea e labirinto, numa turbulência vertiginosa de ciclone.

Senti-me desequilibrada. E confesso que só agora descobri que o sistema auditivo é responsável pelo equilíbrio do corpo (acho que perdi essa aula de Biologia).

A causa? A explosão de um fogo a poucos centímetros da minha cabeça.

Não houve ferimentos. Não há sequela aparente, apenas um certo desconforto.

A grata certeza de que a piedade divina, na figura do meu anjo da guarda, está a postos, me alegrou, e a ele dedico uma explosão de merecidos agradecimentos. Valeu, amigão! Obrigada por mais essa. Um dia lhe darei um grande e afetuoso abraço por tanta proteção.

Paz e Bem a todos!

Socorro Melo

segunda-feira, 14 de outubro de 2013


Dentro de cada casulo existe uma crisálida, uma borboleta, se preparando para nascer.

Algumas conseguem, antes de nascer, transpor parte da barreira, e por pequeno furinho, observar o mundo, em que logo, logo, vão viver... E se encantam com a luz do sol, com as flores, seus perfumes e suas cores...

Quem dera, que entre nós, houvesse muitas "borboletinhas" assim, atenciosas, que pudessem enxergar antecipadamente a vida maior, a que somos chamados...

A fé nos garante isso, a certeza da realidade que ainda não se vê. Pensemos nisso. Tenhamos fé.


Paz e Bem!

Socorro Melo

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

TODA VIDA É VIDA


TODA VIDA É VIDA

Que coisa estranha! Se toda vida é vida, por que pensamos que uma vida é melhor que outra vida?

Por que pensamos que os nossos critérios de decidir quem vai viver está correto, em detrimento de quem vai morrer? Quem é nocivo deve morrer, sem piedade, e quem não é, deve viver. Mas, se tudo é vida... Tudo criatura...

Será que quem é nocivo aos nossos olhos, não pode ter sua utilidade? E quem nos parece inofensivo não tenha também sua nocividade?

Ai, que dúvida! Dúvida?

De relance, vi a sombra se mover, numa rapidez vertiginosa. Não deu tempo de ver o que era. Passou-se um dia. Dia seguinte vi, pela segunda vez, mover-se ligeiro, e não tive dúvida, era o que eu pensava.

Preparei as armas. Coloqueia-as a postos. Horas mais tarde ouvi o disparo. Corri ao encontro, achando que o meliante tinha sido pego, mas, para minha surpresa, lá jazia outro, que não deveria morrer, e que me deixou penalizada e com tanto remorso, que fiquei remoendo a questão, e reconsiderando meus valores.

A ratoeira havia capturado um passarinho...

Por que, me perguntei (e ainda me pergunto) posso matar o rato e não me sentir culpada, e sofrer tanto com a morte do passarinho?  Se toda vida é vida...

Por Socorro Melo

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O BOI DE BIU

O Boi de Biu. Já ouviu falar? Foi o menor bloco carnavalesco do mundo. Ouvi rumores de que vai para o Guines. Torço para que seja verdade, pois, é um tributo bem merecido, a quem foi perseverante por tantos anos, numa terra onde o carnaval só existe na folhinha do calendário.
Com chuva ou com sol, o Boi estava na rua, nos dias de carnaval, na cidade “fantasma” de Belo Jardim, no Estado de Pernambuco, minha terra. Digo fantasma porque no Carnaval, a cidade se esvazia, visto que grande parte da população se retira, para o litoral e/ou outras localidades. Mas os poucos que ficavam, podiam se enternecer e se distrair um pouco, vendo o bloco passar.
O bloco era composto basicamente por Biu, seu idealizador e presidente, o Boi, a atração principal, e um punhado de moleques das ruas por onde passava. Na verdade eu desconfio se a atração principal era mesmo o Boi, ou se era Biu.
Biu era uma dessas pessoas que se costuma chamar, ou rotular, de simplórias. Para mim ele era simples. Tinha seu jeito singular de ser, jeito de gente, cheiro de povo. Não se importava de parecer ridículo, e na verdade não era, e nem dava atenção para as chacotas.
A cada Carnaval, o Boi inovava. Nunca se apresentava sem uma pequena mudança, por mais imperceptível que fosse. Era um boi colorido, cheio de brilho, cheio de vida, da vida de Biu, que lhe imprimia alegria. A orquestra que os acompanhava se resumia apenas num atabaque, que enchia com sua cadência as ruas por onde o cortejo passava. Cortejo? Bem, não era assim um corteeeejo, pois houve ocasiões em que desfilavam apenas Biu e o Boi.
Este ano Biu se foi, fez a grande viagem. O Boi ficou órfão. Dizem que no seu leito de morte Biu fez um pedido: que não deixassem de botar o Boi na rua... Talvez seja chacota isso, mas, é bem próprio de Biu.
A simplicidade encanta. E Biu encantou. Biu, e o Boi. Na terrinha, não há quem não fale com carinho dessa dupla. Cada um sabe contar um pequeno fato ou uma situação inusitada que aconteceu, e situações inusitadas e engraçadas era o que não faltavam a esse bloco surpreendente. E o povo sorria e aplaudia.
Biu se foi, o Boi ficou. Mas o Boi não existe sem Biu. O Boi foi o sonho de Biu, sua melhor construção. Nele realizou-se e registrou sua marca na cultura do  povo. Deixou o seu exemplo de perseverança. Foi aquele que acreditou e nadou contra a corrente sem nunca largar o sonho.
Se for verdade, e não apenas rumor, se O Boi de Biu, o menor Bloco carnavalesco do mundo for, de fato,  para o Guines,  será eternizado, e será conhecido do mundo todo. A simplicidade encanta e surpreende.
“ Os últimos serão os primeiros”, disse um grande sábio, que também foi simples.
Abre alas, minha gente, abre alas que o Boi de Biu vai passar, para a história da humanidade. Eu até posso imaginar a satisfação de Biu, o seu sorriso de triunfo, por entender que fez a diferença por aqui, que plantou alegria, para que tantos colhessem os frutos da saudade. Olha o Boi de Biu aí, gente!

Por Socorro Melo


sábado, 7 de setembro de 2013

FALANDO DE PAZ

Mais assombrosa do que a cena trágica de morte, das vítimas de arma química, na Síria, foi a compreensão do quanto é possível ao homem ser cruel e desumano.

Estremeci diante dessa re-descoberta. Senti medo.

Eu tinha minhas ilusões a respeito do ser humano...

Como é possível, em pleno século XXI, depois de todo progresso conquistado pela humanidade, de tanta modernidade, tanta tecnologia, ciência, recursos sofisticados, meios de comunicação diversos, diplomacias, o ser humano tender a resolver suas questões através da força das armas, como bárbaros?

Quantos jovens e crianças perderam a vida? Quantos inocentes, vítimas da ganância e do orgulho humanos? Que insensatez! Que tristeza!

O mundo jaz nas trevas do paganismo moderno e crescente. Deus parece que não se faz mais necessário, foi descartado. Os poderosos, que deveriam ser líderes do seu povo, são os opressores. Consideram-se auto suficientes, imbatíveis...

Não consigo compreender tanta dureza de coração. Não consigo conceber um mundo sem amor... sem Deus.

Se o homem é auto suficiente, por que precisa de armas para governar? Nem mesmo é capaz de dialogar... Por que tudo é explicável, tudo é possível, menos aceitar Deus? Por que essa possibilidade assusta tanto os homens?  Deus não é entrave, é resolução. Quando Ele governa a justiça acontece. O mundo jamais terá paz enquanto dominado por homens ambiciosos, frios e calculistas. O governo dos homens sempre será autoritário, tirano, egoísta... Será que é tão difícil compreender isso?

O mundo tem sede de Deus. E somente Ele é capaz de libertar o homem da brutalidade e da ignorância.

De quanto desenvolvimento e conhecimento (Científico,Tecnológico, Político) a humanidade se orgulha, todavia é lamentável a pobreza moral, ética e humana em que tragicamente se consome.

Por que Deus permite que tudo isso nos aconteça? Porque escolhemos assim. Esse é o produto da nossa liberdade, da nossa opção de vida, que quer afirmar que Deus está ultrapassado, que é desnecessário. Que pena! Os horrores que vemos são consequências da trajetória equivocada que as sociedades tem percorrido.

Nem a vida humana tem mais valor, até ela é banalizada. Infelizmente, os frutos que teremos a colher são desses a piores.

Rezemos pela paz do mundo continuamente, e que  Deus nos ajude a sermos instrumentos dessa paz!


Por Socorro Melo