Pegadas de Jesus

Pegadas de Jesus

domingo, 24 de novembro de 2013

PAI, CHEGUEI!


Dia desses, minha irmã, que é da equipe de acolhida, recepcionava as pessoas que iam chegando para a Santa Missa, enquanto entregava o jornal da liturgia.

Aí, chegou um senhor, muito simpático, que respondeu alegremente a sua saudação. No entanto, quando ela estendeu-lhe a mão para entregar o jornalzinho, ele falou assim:

- Precisa não, moça, o jornalzinho não, pois eu não enxergo quase nada, mesmo com óculos. Quando eu chego aqui, apenas me ajoelho, e falo assim: Senhor, Zé chegou!

Achei fantástica esta história. A simplicidade sempre me encanta. Quantas vezes tentamos elevar a Deus preces bem feitas, orações emocionantes, palavras bonitas, que nem sempre saem do coração.

Deus é simples. E para agradar a Deus, basta amar, de verdade. É muito mais profundo dizer, em poucas palavras: Senhor, eis-me aqui! O que significa: Senhor, Zé chegou!

Que tenhamos sempre essa consciência, ao tratarmos com Deus. Diante dele não precisamos dizer nada, bastando ficar quietos, em profundo silêncio interior. Na presença dele contemplemos, adoremos, e deixemos que ele nos envolva com o seu amor.

Senhor, Zé chegou! O Senhor conhece o Zé, desde que o gerou, nas entranhas de sua mãe. Desde que soprou-lhe nas narinas o espírito vivificante... O Senhor sabe o que o Zé pensa, o que carrega no coração, quais são suas alegrias e tristezas, necessidades e intentos.

Zé chegou, e o Senhor o recebe de braços abertos, do alto de sua cruz, porque se Zé está ali, é porque o reconhece como Pai, e todas as semanas, normalmente no mesmo horário, eles têm um encontro marcado.

Pai, cheguei! É isso que quer dizer o Zé, com sua oração simples. E, com certeza, o Pai se alegra, pois, não há nada mais gratificante, compensador e sublime, do que um Pai ver um filho seu adentrar as portas de sua casa.

Por Socorro Melo

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A TEMPESTADE

Minha mãe era minha heroína. Sempre fora. Para mim ela era imbatível. E nem mesmo os meus super-heróis preferidos igualavam-se a ela. E naquela correria, lutando contra os efeitos da tempestade, ela me parecia sobrenatural. Mas, de repente, ocorreu um fato em que tive de rever meus  conceitos a respeito da coragem de minha mãe.

Já não bastando a tempestade, apareceu por lá uma cobra, trazida pelas águas da chuva. Quando minha mãe a viu, desmoronou, mas não fez escândalo algum. Colocou-nos sobre a sua cama e pôs-se a procurar a cobra que, de repente, sumira de sua vista. Ela estava calada, porém, trêmula e assustada. Ficou brava quando um de nós desceu da cama. E pôs-se na busca da cobra, dificultada pelo aguaceiro e pela bagunça em que estava toda a casa, que era coberta de telha de barro.

Encolhidos sobre a cama, tremíamos de medo da cobra e da tempestade. Eu, na minha inocência, fiquei feliz que o animal tivesse desaparecido, achava que tivesse ido embora, e não via sentido em minha mãe procurá-lo. Mas, ela insistia, e armada de um cabo de vassoura, vasculhava cada canto e recanto da casa.

Repentinamente a cobra apareceu na porta do quarto onde estávamos, no momento em que minha mãe a procurava noutro cômodo. Fizemos um escândalo, é óbvio. Ela veio em nosso socorro, quando a cobra já tinha adentrado o quarto, arrastando-se para debaixo de um móvel. Pôs-se a cutucá-la com a ponta do cabo de madeira, e a bater nela sem piedade, quando a cobra, tentando se defender, foi em sua direção. Minha mãe, aterrorizada, mas firme no seu propósito, subiu na cama e continuou a golpeá-la. A cobra se retorcia, sangrava, dava pequenos botes, porém desfalecia pouco a pouco, até que minha mãe esmagou-lhe a cabeça. Se não fosse uma cobra, creio que teria me escandalizado com tamanha violência. Consumado o ato, mamãe permaneceu sentada na cama, com os braços pendentes, sem forças, mal segurando o cabo da vassoura, melhor, a arma do crime. Depois de instantes, respirou aliviada e saiu para beber um copo de água. Voltou refeita. Recolheu os restos mortais da cobra e os jogou fora.

Curiosa como sempre fui, e admirada com a bravura da minha mãe, pois, ela acabara de reassumir, com mais força, o seu papel de heroína no meu pensamento, perguntei: - Por que a senhora continuou a procurá-la? Sabia  que ela estava aqui? E ela respondeu que a cobra é um bicho traiçoeiro e peçonhento, e que se aproveita da nossa ingenuidade e displicência para dar o bote. Que animais assim devem ter a cabeça esmagada, pois, se ferir-lhes apenas o corpo são capazes de se arrastarem e cumprirem seu intento: picar e destilar o veneno. E nesse interim, a tempestade também passou, trazendo-nos a bonança.

Por Socorro Melo (Projeto Cata-Vento).

sábado, 2 de novembro de 2013

O JANGADEIRO


Meus familiares se animaram, vendo a experiência das outras pessoas que atravessaram o rio, com a água na altura do pescoço, e resolveram atravessar também, porém, existia um grande empecilho: eu. Eu devia ter uns oito anos naquela ocasião. Então, de comum acordo, resolveram que a minha travessia seria de jangada. Eu, ainda agarrada na saia da minha mãe, tremendo de medo por mim e por eles, desatei a chorar. Não queria ir na jangada, sozinha, sem a minha mãe. E não concordava que ela enfrentasse aquele rio impiedoso. O jangadeiro, vendo meu dilema, reforçou as palavras de minha mãe: não há o que temer as águas já baixaram... E se elas voltarem? – perguntei. Não voltam mais, elas estão indo para o mar. – E se vierem outras? – Insisti. Faremos nossa passagem bem rápida, falou o jangadeiro, não dá tempo de elas nos alcançarem. Senti tanta firmeza nas palavras daquele homem. Ele me transmitiu tanta segurança, que até aquele instante,  só minha mãe tinha o dom de fazê-lo. Então fui. O jangadeiro, que era um conhecido da família, segurou minha mão, me pôs no colo, e me conduziu até a jangada. Fiz um pequeno escândalo quando ele alcançou o rio, pois, me parecia que ia nos tragar, e nos arrastar, como fizera com as árvores e o lixo, que eu vi descer tão rapidamente. Mamãe aproximou-se e tentou me acalmar.

Dai a instantes, estava eu sentada na jangada, que balançava sem parar. O frio era cortante, e comecei tremer  não sei se de frio, ou  se de medo.  O jangadeiro enrolou-me com uma lona, e disse para eu fechar os olhos, por um momento, que quando os abrisse, já estaríamos do outro lado. Não consegui seguir o seu conselho. Eu precisava ficar de olhos bem abertos para monitorar os passos de minha mãe, que desajeitadamente, com água acima da cintura, se debatia, juntamente com minha avó e tio, e outros passantes, que tentavam fazer a travessia, lutando contra a forte correnteza.
O jangadeiro via minha preocupação, e meu medo, e tentava me acalmar. Conduzia a embarcação com bastante habilidade, mas, vez em quando, uma lufada d’água vinha em nossa direção, por sorte a lona me protegia. Ele ria e fazia anedotas, e se dizia capitão de grande navio. Chamava-me de senhorita e perguntava se estava gostando da viagem, então eu sorri, e relaxei ouvindo as suas histórias mirabolantes.  Era um homem rude, como podia ter tanta habilidade para lidar com crianças, numa situação daquelas?  Não sei, só sei que me deixei absorver por suas histórias, e de repente já me via aportando do outro lado do mundo, segundo ele. E pra minha surpresa, o outro lado do mundo era a nossa margem de destino. Quando me retirou da jangada, olhou pra mim e disse: viu? Chegamos são e salvos. Eu sou ou não sou um bom capitão? Balancei a cabeça afirmativamente, sorri, e fui ao encontro dos outros que se aproximavam.


 (Socorro Melo, Projeto Cata-Vento).

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

QUE OUSADIA!


Já pretendi mudar o mundo (que ousadia)! Tentei entender sua política, sistemas e ideologias, mas, me decepcionei... Percebi, então, que melhorando a mim mesma a cada dia, estou contribuindo, inevitavelmente, para a construção de um mundo melhor.

Socorro Melo

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

SAUDADES

Penso sempre naquele menino, que teve impedida a sua caminhada... Dono de um belo rosto, e de um sorriso encantador. Era alegre, sapeca, destemido, desafiador.
Meu amiguinho só tinha doze anos. Passou meses travando uma luta ferrenha contra o câncer. Foi valente, mas, perdeu a batalha. Uma perda que me marcou profundamente. Por dias pensei na efemeridade da vida, no porquê de mortes assim, tão prematuras.
Já faz tanto tempo. Hoje ele seria um homem. Mas, continua vivo no meu coração, porque a morte não tem o poder de destruir o amor.

Socorro Melo

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

SERÁ POSSÍVEL?

Ambiente de pobreza não significa necessariamente ambiente de infelicidade. O que torna o ambiente hostil é o mau exemplo. Como dói saber que existem pais, que são desonestos, e ainda compartilham dessa desventura com os filhos.

Socorro Melo

domingo, 20 de outubro de 2013

PENSE NISSO


A enfermidade, que tanto tememos, é uma possibilidade singular de encontro com Deus. Diante dela, dissipam-se todas as ilusões, e passamos a enxergar a dimensão espiritual da vida.

Socorro Melo

terça-feira, 15 de outubro de 2013

ESTAMPIDO


Como descrever o que senti? Não encontro palavras que o façam fielmente, mas, vou tentar.
Contei com o elemento surpresa, que não sei se foi positivo ou negativo. Entanto, convenhamos que tenha sido positivo.

A sensação foi horrenda. Nunca havia sentido nada igual. Sabe o que é se sentir no olho do furacão? Penso que deve ser assim.

Estava eu feliz, serena, prestando atenção em algo importante, de valor inigualável, quando de repente, ouviu-se um estampido, atemorizante, ensurdecedor...

Fui tomada por uma sensação de morte. Elevei as mãos à cabeça, instintivamente, e tinha certeza de que a mesma iria se abrir em duas bandas, qual melancia talhada. Tapei os ouvidos, olhei desnorteada à minha volta, abismada, esperando o sangue escorrer por entre os meus dedos. Era o fim. Senti nas mãos, que dos cabelos se desprendia um pó escuro, e fiquei no aguardo do líquido viscoso, que felizmente não veio. Foram minutos intermináveis.

Penso que as vibrações atingiram o máximo de dB(decíbeis) que um ser humano pode suportar... 
Por instantes houve uma chacoalhada dentro da minha cabeça, onde parecia que se chocavam cartilagem, escafa, tímpano, martelo, bigorna, estribo, cóclea e labirinto, numa turbulência vertiginosa de ciclone.

Senti-me desequilibrada. E confesso que só agora descobri que o sistema auditivo é responsável pelo equilíbrio do corpo (acho que perdi essa aula de Biologia).

A causa? A explosão de um fogo a poucos centímetros da minha cabeça.

Não houve ferimentos. Não há sequela aparente, apenas um certo desconforto.

A grata certeza de que a piedade divina, na figura do meu anjo da guarda, está a postos, me alegrou, e a ele dedico uma explosão de merecidos agradecimentos. Valeu, amigão! Obrigada por mais essa. Um dia lhe darei um grande e afetuoso abraço por tanta proteção.

Paz e Bem a todos!

Socorro Melo

segunda-feira, 14 de outubro de 2013


Dentro de cada casulo existe uma crisálida, uma borboleta, se preparando para nascer.

Algumas conseguem, antes de nascer, transpor parte da barreira, e por pequeno furinho, observar o mundo, em que logo, logo, vão viver... E se encantam com a luz do sol, com as flores, seus perfumes e suas cores...

Quem dera, que entre nós, houvesse muitas "borboletinhas" assim, atenciosas, que pudessem enxergar antecipadamente a vida maior, a que somos chamados...

A fé nos garante isso, a certeza da realidade que ainda não se vê. Pensemos nisso. Tenhamos fé.


Paz e Bem!

Socorro Melo

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

TODA VIDA É VIDA


TODA VIDA É VIDA

Que coisa estranha! Se toda vida é vida, por que pensamos que uma vida é melhor que outra vida?

Por que pensamos que os nossos critérios de decidir quem vai viver está correto, em detrimento de quem vai morrer? Quem é nocivo deve morrer, sem piedade, e quem não é, deve viver. Mas, se tudo é vida... Tudo criatura...

Será que quem é nocivo aos nossos olhos, não pode ter sua utilidade? E quem nos parece inofensivo não tenha também sua nocividade?

Ai, que dúvida! Dúvida?

De relance, vi a sombra se mover, numa rapidez vertiginosa. Não deu tempo de ver o que era. Passou-se um dia. Dia seguinte vi, pela segunda vez, mover-se ligeiro, e não tive dúvida, era o que eu pensava.

Preparei as armas. Coloqueia-as a postos. Horas mais tarde ouvi o disparo. Corri ao encontro, achando que o meliante tinha sido pego, mas, para minha surpresa, lá jazia outro, que não deveria morrer, e que me deixou penalizada e com tanto remorso, que fiquei remoendo a questão, e reconsiderando meus valores.

A ratoeira havia capturado um passarinho...

Por que, me perguntei (e ainda me pergunto) posso matar o rato e não me sentir culpada, e sofrer tanto com a morte do passarinho?  Se toda vida é vida...

Por Socorro Melo