Estou
em processo de desaceleração. Somente agora, depois dos cinquenta anos, tomei
consciência do quanto me violentei, do quanto me cobrei, e de como tão
pessimamente administrei minhas emoções. Estresse. Estresse. Estresse. Agi
assim motivada pelas circunstâncias, pela falta de experiência e talvez até herança
genética. Contrariei-me por tão pouca coisa. Quantas descargas emocionais por
problemas tão insignificantes e até imaginários! Gostaria de voltar no tempo, e
ter oportunidade de refazer o meu caminho, com a bagagem que tenho hoje. Como
não posso, tenho me esforçado para dar uma nova dimensão à minha qualidade de
vida.
Herdei
dos meus antepassados, possivelmente, a inquietude, o temperamento agitado, a
impulsividade, o imediatismo. Quantas
vezes me desarmonizei por ninharia. Ansiedade e impaciência sempre foram
características marcantes. Nunca soube trabalhar sobre pressão, ou com prazos
exíguos, nem assumir várias atividades ao mesmo tempo. Mantinha-me calada, nos
momentos de tensão, e lutava contra essa impulsividade sofrendo toda a agressão
em silêncio, toda descarga emocional. Inúmeras vezes fui vítima de estafa, de
cansaço mental. E com certeza tudo isso refletiu nos meus relacionamentos, nos
mais estreitos, ainda mais.
Certa
feita participei de um evento importante que tratou das competências
emocionais. O profissional, um psicoterapeuta, fazia uma comparação da nossa
constituição psíquica com um jogo de xadrez, onde o EU, era o Rei e o EGO, o
cavalo, e pude perceber o quanto na vida fui dominada pelo cavalo.
Sentia-me
presa e necessitada de pasto para abastecer o ego. Havia um vazio de sentido e
uma angústia velada. Apesar de tudo isso, Deus sempre ocupou um lugar
importante na minha vida, eu só não sabia como lidar com Ele. Não sabia
alimentar corretamente a minha fé e nem controlar as emoções, nunca soube. Aí
veio uma crise. Bendita crise, que me fez refletir sobre muita coisa, e a
partir dela tomei atitudes novas e me pus em busca da serenidade e da paz, e
consegui.
Depois
de um tempo de procura, o encontro. De repente, foi como se uma luz tivesse se
acendido dentro de mim. E ela expandiu minha consciência e iluminou recantos
que eu nem imaginavam tivessem obscurecidos. Pude me ver sem máscaras. E vi o
quanto me enganei na vida, o quanto sou frágil, mas também o quanto amo e
valorizo a vida. Procurei avidamente me preencher de Deus e me esvaziar de todo
lixo emocional. Dos seus sinais fiz o meu caminho. E tenho buscado essa
comunhão todos os dias, caindo e levantando, mas, com objetivo, perseverante,
esperançosa, apaixonada. A vida em Deus é uma experiência, e eu me propus a
fazê-la, e descobri tanta coisa que o véu da ignorância ocultava. Ele não é
algo à parte, inacessível, ele é Presença real e constante.
Começo
a perceber o Rei (o meu eu) no comando da minha vida, insisto nisso, quero
isso. Retiro o pasto do cavalo (o meu ego) e vejo-o relinchar de
descontentamento, e sinto o quanto é boa a sensação de vencer a mim mesma.
Insegurança, vazio, sombra, angústia, medo, tudo vai se dissipando numa
sutileza impressionante. E as cores da vida vão surgindo, em nuances, alegres e
festivas quando nos harmonizamos e equilibramos as emoções.
A
meta a ser perseguida quotidianamente é a paz, na certeza de que “tudo
contribui para o bem daqueles que amam a Deus”.
Por Socorro Melo





