Pegadas de Jesus

Pegadas de Jesus

domingo, 24 de abril de 2016

ALAMEDA


Imagem da Net


Era pouco mais de seis horas da manhã quando pus os pés na alameda. O verde era o que se podia ver até onde a vista alcançava, naquela manhã serena e ensolarada. Tudo estava tão quieto, mas, parece que tudo comunicava, e a natureza exibia sua majestade sob o sol brando que preguiçosamente despontara.

À minha frente, um tapete dourado de folhas secas se estendia, e imponentes árvores frondosas sombreavam o caminho, que serpenteado de flores, de diversas cores, imprimiam em mim um doce desejo de ficar ali, de tocar, de sentir, a maciez e o perfume que suavemente já se espalhara no ar. Eram flores brancas e delicadas, exuberantes gladíolos vermelhos, hibiscos, violetas e outras silvestres igualmente belas.

Uma brisa mansa fez vibrar aquele lugar, e à medida que eu avançava, grande quietude se fez dentro de mim: um silêncio interior profundo e crescente. Um silêncio que tocava minha sensibilidade, que dizia tudo, naquela voz que não calava, naquela atitude reverente do poeta, que vê o que ninguém mais vê, diante de si, e procura ansiosamente colocar em palavras, descrever a beleza, a simplicidade, o segredo e a magia de tudo que vê, de tudo que apreende, de uma raiz exótica, de um traçado de renda das copas altas, de um esvoaçar de folhas e galhos...

Era como uma passarela. Eu ouvia aplausos, música suave, movimentos sincronizados, gorjeio de passarinhos, borboletas coloridas.... E a luz. A luz da manhã, que me despertava e fazia-me sentir a grandeza do meu ser, e do meu existir. Diante de mim eu percebia e via a admirável graça da vida.

Estremeci. Minha alma transcendeu. Elevei, reverente, uma humilde prece de gratidão ao Criador, enquanto meus olhos admiravam, com ternura, a imensidão, no límpido céu azul.

Por Socorro Melo


21/04/2016.

domingo, 17 de abril de 2016

CONFABULANDO


Hoje, a tarde está nublada e cai uma chuvinha fina. O dia parece triste, mas, há uma algazarra de meninos que jogam bola na rua, acertando, vez por outra, o meu portão. Confesso que isso me irrita. 

Há pouco, estava fazendo uma pesquisa sobre o Paquistão, tentando conhecer algo sobre aquele país, saber como são as ruas, pelas imagens, e como vive aquela sociedade. A curiosidade se deve, em virtude de ter terminado de ler o livro Eu sou Malala, e de ter ficado bastante impressionada. Fiquei chocada com tantas coisas que para nossa cultura são inadmissíveis, porém, descobri que em tantas outras coisas nós somos iguais.

Navegando para lá e para cá vi uma imagem que me chamou a atenção, uma menininha estendendo a mão, num gesto de paz, para um homem armado. Aquela imagem me tocou profundamente. Fico imaginando o quanto o mundo poderia ser melhor se tivéssemos todos, os adultos, o mesmo olhar da criança. Como a vida seria mais fácil, e mais plena. Por que é tão difícil promover a paz? A humanidade já evoluiu tanto, já inventou tantas coisas importantes, já descobriu tantos segredos do universo, já experimentou tantos regimes políticos ineficazes, e por que continua repetindo o mesmo erro, teimosamente, sem dar nenhuma chance à paz.  Às vezes, até parece, que o ser humano nao é tão inteligente quanto eu supunha ser.

Por que se destrói tanto em nome do poder, da ganância, do orgulho, se na verdade tudo aqui é efêmero? Será que ninguém pensa nisso? Não seria mais interessante cultivar a paz e viver em harmonia? Por que fazer tanto males aos  semelhantes? Escravizar, perseguir, aterrorizar... Por que tanta falta de respeito com as crianças? Não consigo entender a maldade feita às crianças, pobres inocentes, tão indefesos.

Malala, a protagonista da história, é um exemplo a ser seguido. Aproveitou as oportunidades que teve, encheu-se de coragem, e também buscou no Divino a sua força. Fez de sua voz a de muitas mulheres, "amordaçadas" por um regime machista, retrógrado. Colocou em risco a própria vida, para protestar contra o abuso e o terror. E foi vencedora. E é vencedora. Como ela mesma diz, tentaram me silenciar, mas, ao invés disso, minha voz ressou no mundo inteiro. Tornou-se pública uma realidade de opressão, violência e descaso do seu mundo, da sua sociedade.

Eu tenho pensado  tanto na situação do nosso país. Um lugar bonito, favorecido com uma fauna e uma flora maravilhosas, um povo tão pacífico, acolhedor, e tão mal administrado. Quanta corrupção! Tanta riqueza desviada, que poderia ter sido utilizada para o bem comum.

Eu entendo que o melhor regime político é sem dúvida a democracia. Mas, como é mal administrada a nossa. Nem parece uma. Não há interesse, parece-me, de se realizar algo de bom pela nação, os representantes do povo apenas cuidam e administram seus próprios interesses. E o pior é a cara de pau com que encaram o povo, e a disfarçatez com que  proferem suas mentiras.

É desanimador. Sabemos que uma grande mudança, e muito séria,  tem que haver, A mentalidade e a cultura de nossa sociedade precisam mudar, senão, vamos à bancarrota em menos tempo do que imaginamos.

(Socorro Melo).

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

COMPAIXÃO


Huguinho ouviu falar de compaixão, na Igreja. Chegou em casa e meio desconfiado perguntou à mãe:
        Mamãe, o que é compaixão?
A mãe, sem saber bem como explicar, respondeu:
        É quando a gente se coloca no lugar do outro, e  consegue sentir a sua dor... entendeu?
Pensativo e nada convencido,  o menino respondeu:
        Não. Não entendi. Como é isso de sentir a dor do outro?
Uma dia você vai compreender. Quando você crescer será mais fácil.
Dali a alguns dias, apenas, o Huguinho se deparou, no Shopping, com uma cena que lhe marcou seriamente. Caminhava ele em direção às salas de cinema, quando, a meio do caminho, ouviu um pai, que ao celular recebia uma notícia triste e repassava para o seu filho que estava ali do lado, e o menino, que devia ter a mesma idade de Huguinho, recebeu a notícia com grande aflição. Ele chorava muito, se contorcia, e pedia para o pai dizer que aquilo não era verdade.
Huguinho, a muito custo, continuou seu caminho, porém, depois de ver a cena do menino, sentiu uma dor no peito, inexplicável. Dos seus olhos brotaram lágrimas. Ele nem conhecia o menino. Nem sabia o teor da notícia que recebera, mas, sentiu a dor que ele sentia. Não saberia explicar. Ao  mesmo tempo que se afastava da cena, olhava para trás, na esperança de ver o menino e saber ao certo o que acontecera. E aquela dor estranha que sentia o incomodava.
Ato seguido, num lampejo, Huguinho pensou: COMPAIXÃO.
Quando chegou em casa, no fim da tarde, procurou a mãe e disse: já compreendi, mamãe. Eu agora sei o que é compaixão.
E a mãe sorriu, feliz e curiosa.

(Socorro Melo)

sábado, 6 de fevereiro de 2016

MERRICK


Lembrei-me de um filme, que assisti há bastante tempo. É um filme belíssimo, e que me marcou profundamente, tanto que nunca o esqueci. Esse filme, de 1980, foi baseado em fatos reais. E conta a história de um homem, um inglês, que tinha uma doença rara, de nascença: uma neurofibromatose múltipla. Seu corpo era quase que totalmente deformado. A deformidade era tão agressiva, que incutia certa repulsa em quem o olhasse, e deixava-lhe com um aspecto animalesco, que lembrava um elefante, por isto o título do filme: O Homem Elefante. A doença foi posteriormente diagnosticada de síndrome de proteus.

No entanto, era uma pessoa humana intensa, de grande sensibilidade, e beleza interior, e que cativava àqueles que dele se aproximavam. Chamava-se Joseph Merrick. Conta a história, que Merrick foi vítima de pessoas inescrupulosas, que desrespeitosamente se aproveitaram da sua fragilidade, das suas limitações, e o escravizaram de forma absurdamente desumana. Os tais algozes, exibiam-no em um circo de aberrações, como uma aberração da natureza. Era apresentado, como a versão mais degradante do ser humano, destituindo-lhe de toda dignidade humana. Chamava-o de o homem elefante, e o tratavam como a um animal. No circo, era alimentado apenas com batatas, assim como os elefantes, e era constantemente espancado.

Essa história arranca lágrimas até dos mais duros corações. No enredo, Merrick é descoberto por um médico anatomista, Doutor Frederick Treves, em uma das apresentações do circo, que o internou em um Hospital e passou a estudar sua enfermidade, bem como a lutar pela sua liberdade, e pela consecução dos seus direitos, e da sua dignidade. O filme tem um desfecho belo e poético.

Diante da história de Merrick contada no filme, e de tantos casos de pessoas deficientes, que vivem seus dramas, suas escravizações, e a usurpação de seus direitos, compete a nós cidadãos, cobrar dos nossos representantes, ações governamentais voltadas para a pessoa deficiente. Que lhes confira proteção e segurança.

(Socorro Melo).

sábado, 9 de janeiro de 2016

PEDREGULHO


Porta estreita e caminho apertado, significam desconforto, dificuldades, falta de espaço para se dar vazão a alguma coisa.
E é dessa imagem que Jesus se utiliza para mostrar a passagem que conduz à vida plena. A porta estreita e o caminho apertado que exigem sacrifícios de quem por eles adentra. Há momentos em que será preciso se espremer para dar lugar à outros também passarem.
E é exatamente assim que acontece. Quando nos empenhamos em levar uma vida de virtudes, passamos a ser perseguidos. Perseguições sutis, desafios que parece não fazer sentido. Aí, bate um desânimo, uma apreensão, como se alguma coisa conspirasse contra nós, e vem a tentação de largar tudo e mudar de rota, ou de tática.
Caminho difícil é o caminho estreito. Sempre estamos encarando alguém de mal humor, ou nos atritando com algo que se atira à nossa frente, ou escorregando e voltando ao ponto de partida, e como é custoso dar um passo à frente... Quantas vezes é preciso cair para que alguém prossiga, silenciar para que alguém fale, emudecer para que os ânimos se acalmem, e ferir os pés nos pedregulhos vivos que estão dispersos …
E dói tanto. O coração chora, a alma sangra, o espírito se inquieta e quase se desespera. E descobrimos o quanto somos frágeis e o quanto ainda estamos distantes da chegada.
Esse é o caminho do amadurecimento. Como disse Santa Teresa de Ávila, o caminho da perfeição. Nele somos forjados, somos convidados a aprender a ter o domínio sobre nós mesmos, sobre nossas emoções e sentimentos, sobre nossas atitudes, e a reconhecer os nossos equívocos, as nossas fragilidades e infantilidades.
Nosso orgulho e nossa vaidade estão sempre a nos derrubar. É importante ter objetivo e determinação, saber o que queremos e onde almejamos chegar. É preciso reinventar, recolher os cacos e retomar a caminhada tantas vezes quanto se faça necessário. E ter em mente que trata-se do caminho que conduz à vida, e isso, por si só, basta. Certa vez Jesus disse: “Aquele que se põe no arado e olha para trás, não está apto para o reino de Deus”. Estamos?

 (Socorro Melo).

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

PESSOA BLINDADA


Pessoa blindada. É o que parece. Levanta uma muralha de indiferença ao seu redor, que não há diálogo que derrube.

Pessoa blindada é imprevisível. Quando tudo vai bem, ótima pessoa: sabe ser cordial, receptiva. Quando contrariada, se revela: descompensada, azeda, mal agradecida.

Imatura? Imatura. Meio selvagem. Não sabe utilizar bem o código de comunicação. Se uma palavra lhe é dirigida, contra-ataca, com ofensas. Ofensas que são flechas afiadas, que atingem o “inimigo” bem dentro da alma, e causa um estrago enorme.

Pessoa blindada é seca. Não consegue sentir ou saber o que provoca uma poesia. Não canta. Não dança. Não sorri. Grunhe.

Blindada. Não sabe oferecer uma flor. Nem sequer aprecia a beleza das flores. Nem do luar. Nem se encanta com as estrelas. Não diz eu te amo. Não abraça. É rude. Selvagem. Não faz mimos a quem ama. Ama? É desinteressada. Opaca. Sem brilho.

Pessoa blindada se exclui. Se fecha no comodismo. Gosta de ser servida. Não se compraz com o que é belo. Aliás, nem sabe o que é o belo. Não se deixa amar. Espanta. É uma ilha, quando poderia ser um mar.

Não se ama. Não sabe amar. Não é livre e tolhe a liberdade dos outros. Pessoa blindada. É uma ostra. Não, ostra não. A ostra tem a nobreza de produzir a pérola, mediante o sofrimento. Pessoa blindada não. Não sabe dividir, não sabe contemplar, não soma, não agrega valores. Não fala, não ouve, não vê, não sabe viver... Não se enlaça. Não sabe ser feliz. Que lástima!

(Socorro Melo)


domingo, 27 de dezembro de 2015

POR TRÁS DE CADA LÁGRIMA...




Se vê  pesadas correntes
Rastro de dor, desespero
Anseios de vida urgentes

Se vê fome e sede hostis
Tratamentos desumanos
E preconceitos vis

Se vê feridas abertas
Abandono e exclusão
E injustiças molestas

Se vê crianças mutiladas
Vítimas de guerras insanas
E miséria escancarada

Se vê vergonha contida
Desrespeito e intolerância
Com a dignidade da vida

Se vê gritos de dor
Apelos de esperança
E mendicância de amor.

Socorro Melo




quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O NUMINOSO EM MIM

Participação na VI Interação Fraterna de Natal - Tema: O numinoso em mim, promovido pela amiga Rosélia do Blog http://www.idade-espiritual.com.br/

Um tema rico de conteúdos, de experiências, que podem ser apreciadas nos Blogs participantes. Muito grata, Rosélia, pelo convite. Espero que minha humilde participação tenha atendido a proposta da BC. 




O NUMINOSO EM MIM

A percepção do sagrado despertou em mim muito cedo. Sempre gostei de silêncio, e de quietude. Sempre me chamou a atenção situações simples que talvez para a maioria das pessoas não tivesse valor algum, mas que para mim diziam alguma coisa. Gostava de ficar horas fitando as estrelas, e imaginando o que haveria por trás delas, porque, uma voz interior me dizia que havia Alguém maior para além delas...

Fui crescendo com essa certeza. Era de dentro de mim que ela brotava. Eu não tive influência nenhuma. Pensava muito. Questionava muito. Não encontrava respostas.
Participava da santa Missa com respeito, com reverência, mas sem consciência do quanto era sublime. Por muito tempo foi assim. Mas eu sentia que faltava algo, não poderia ser somente aquilo que eu via, tudo era muito ritual.

E daí começou a minha busca de Deus. Eu não queria crer que Deus se manifestara apenas aos homens do passado, da antiga aliança. Ele não poderia ter abandonado a humanidade, por certo Ele se manifestaria de alguma forma, no nosso tempo. Eu aprendi que vivemos o tempo do Espírito Santo, e que Ele é o doador dos dons, e porque eu não via nada? Nada acontecia, era tudo tão ritual.

A fome e a sede de Deus aumentavam. A vontade de conhecê-lo ainda mais. E daí fui devorando livros. E mais livros. A princípio sem uma meta definida, porém, depois mais selecionados. Nunca tive nenhuma direção espiritual. Mas, mesmo assim fui despertando para a mística. E na busca desse conhecimento fui assimilando respostas para tantas de minhas perguntas.

Li sobre todas, ou quase todas as principais religiões do mundo. Até participei, por curiosidade, acima de tudo, de cultos de outros credos diferentes do meu, e até simpatizei com alguns deles, mas, nunca senti vontade de mudar de religião, eu só queria encontrar as respostas dentro daquela que sempre professei. E assim aconteceu.

Por um tempo me descuidei da fé. Mas, mesmo nesse tempo percebia a presença de Deus me conduzindo. E num momento de grande angústia, de vazio profundo, de desesperança, eu encontrei Deus. Quando eu já não sabia como agir na minha vida. Quando a tristeza tomava conta de mim. Do meu vazio eu clamei a Deus, e Ele só precisava disso para me preencher.

Do nada me apareceu a oportunidade de fazer uma peregrinação, e eu a abracei com todas as minhas forças. Foi o jeito mais terno e suave que já vi de um Pai reconduzir um filho de volta para casa, um filho que merecia talvez uns bons puxões de orelhas.

A peregrinação foi uma bênção, uma unção. Derramei diante de Nossa Senhora de Fátima, lá em Fátima, a minha pequenez, a minha ignorância, a minha insegurança, e pedi que me ajudasse a fazer a experiência de Deus, depois, lá em Assis, pedi a são Francisco que me ajudasse a abrir os olhos da fé, e ele me ajudou. Firmei propósitos de mudança. Ao retornar, conheci a espiritualidade franciscana, o que muito  ajudou na minha conversão.

Sim, porque apesar de ser participante da Igreja eu ainda não era convertida, eu não tinha despertado para a grandeza da espiritualidade. Apesar do movimento íntimo do meu ser, da minha busca constante, nada era ainda claro, eu não enxergava o outro lado.

Após a peregrinação comecei a colocar alguns pontos nos “is”. Comecei a estruturar minha vida para se adaptar à mudança que eu pretendia fazer na minha rotina. Procurei caminhos que me levassem ao crescimento espiritual, e me lancei com fé e esperança nesses caminhos.

Um dos caminhos que eu encontrei foi a meditação cristã, oração contemplativa, com a qual eu me identifiquei  plenamente. Outro caminho foi a Lectio Divina, e um terceiro muito rico: a vida dos santos, especialmente os grandes místicos da igreja (S. Teresa de Ávila, S. João da Cruz, S. Pedro de Alcântara, S. Gemma Galgani, S. Verônica Giuliani, S. Pe.Pio) porque é neles que eu encontro mais fortemente os sinais da presença de  Deus no meio de nós.

A meditação me ensinou a buscar Deus dentro de mim mesma, pois, o meu coração é a sua morada, eu sou templo do Espírito Santo. Despertou-me para realidades até então desconhecidas, para o auto conhecimento. E assim, convicta agora dessa realidade espiritual que já começo gozar pela fé, entre quedas e avanços, vou fazendo a minha história com Deus, em Jesus, Ele que é a minha luz, a minha razão de ser, e a minha meta.

E assim passei a entender a parábola da pedra preciosa escondida no campo... E hoje faço a experiência de viver com Deus. Não existe maior conforto.

(Socorro Melo)


Desejo a todos os leitores um feliz e abençoado Natal!


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

OLHA NOS MEUS OLHOS

Certa feita participei de um grande Seminário, na área de Recursos Humanos. E uma das oficinas, trabalhada por uma famosa psicóloga, foi muito marcante. Primeiro, pela desenvoltura com que ela conduzia os trabalhos, e segundo, porque parecia que ela dizia tudo o que queríamos ouvir, ou que precisávamos ouvir. Ela era agradável, atenciosa, e tinha uma larga experiência profissional.

E num dado momento, anunciou que faria conosco uma dinâmica de grupo. Ficamos entre apreensivos e curiosos, pois, quem é da área de Recursos Humanos, conhece um pouco os métodos de trabalho dos psicólogos, que por vezes, são bizarros.

Posicionamo-nos, conforme ela nos orientou, de dois em dois, um defronte pro outro, e segurando nas mãos, como se fossemos dançar a famosa peneirinha das quadrilhas matutas do Nordeste. Nesse ponto já estávamos rindo muito, e nos balançando, a exemplo da dança acima citada.

A instrutora pediu silêncio e atenção, e vendo que já estávamos posicionados, enunciou o procedimento da dinâmica, que era o seguinte: deveríamos nos manter sérios, e durante um tempo determinado por ela, que não era muito, nos olharmos nos olhos uns dos outros... E segurar o olhar.

Parecia tão simples, mais não foi. Até então, ríamos e brincávamos, e estávamos à vontade, porém, a partir do momento em que tentamos cumprir nossa tarefa, a coisa se complicou. Todos nós tivemos dificuldades de olharmo-nos nos olhos uns dos outros.

Uns riam muito, outros se curvavam, alguns tentavam e quando parecia que ia dar certo explodiam, e muitos declararam que não conseguiriam. A psicóloga insistiu, e não arredou o pé, até que nos enfileirássemos de novo, pois já havíamos tumultuado o ambiente.

Recomeçamos do zero. E dessa vez tensos, apreensivos...  Fomos de novo orientados, e aos poucos, um grande silêncio se fez na sala, quebrado apenas por alguns
abafados sorrisinhos. E dali a instantes, olhando-nos nos olhos, por frações de segundos, pois era tudo que conseguíamos, via-se torrentes de lágrimas brotarem de todos os olhos...

Por que este ato nos fragiliza tanto? Por que é tão difícil olhar nos olhos de outra pessoa? A sensação de encarar o outro face a face, e sustentar o seu olhar, é a mesma de nos despir diante de alguém. É como se o outro pudesse descobrir, através dos nossos olhos, todos os nossos segredos, como se nossa alma estivesse desnuda, como se o nosso maior tesouro estivesse à mostra.

Um ditado popular diz que ”os olhos, são o espelho da alma”, e é bem pertinente essa imagem. Ao olharmos nos olhos de outra pessoa, entregamo-nos. É um gesto muito forte, diante do qual, parece que mostramos nossa verdadeira identidade, nossas intenções, e fantasias.

E só vamos conseguir olhar, de fato, nos olhos de quem amamos, ou de quem nos ama, pois ali encontramos aconchego. Sabemos que quem nos ama, de verdade, não nos julga, e nos aceita como somos, com nossas imperfeições.

Quando o nosso olhar se cruza com o de alguém, que não é nosso afeto, a tendência é desviarmos. É como se estivéssemos invadindo uma propriedade alheia, ou sendo invadidos.

E assim, no fim dos trabalhos, olhando-nos desconfiados uns para os outros, nos abraçamos, e guardamos conosco, cada um, o instante mágico daquela viagem, em que navegamos para dentro da alma de nossos colegas, e colhemos um pouco da sensibilidade, que por tantos é guardada a sete chaves. E foi muito rica a conclusão dessa atividade. Foi há muito tempo.

(Socorro Melo)