Pegadas de Jesus

Pegadas de Jesus

terça-feira, 12 de julho de 2016

INCOMODADA


Eu, sinceramente, me considero uma pessoa atualizada, instruída e moderna. Penso que não há mais como não ser moderno nesse tempo em que vivemos, nessa dinâmica que é a vida cotidiana.

Procuro mudar meus paradigmas constantemente. Procuro respeitar a opinião e as escolhas dos outros. Aceito críticas, desde que sejam positivas, que tenham o intuíto de me transformar numa pessoa melhor.

Mas, também tenho minhas críticas. Não suporto e não sei lidar com determinadas coisas que são contra os meus valores,  tais como:

Esse "lixo" que é chamado de música e que  tem se espalhado como uma praga. Uma coisa sem ritmo, sem poesia, sem beleza, sem melodia, somente puro erotismo e barulho ensurdecedor.

Pais que ensinam e/ou incetivam crianças a dançarem essas músicas vulgares.

Meninas na idade escolar e das brincadeiras, maquiadas como se fossem mulheres adultas, muitas até, com cabelos pintados, na mais tenra idade.

Adolescentes ingerindo bebidas alcóolicas, em baladas até altas horas da noite, desacompanhados dos pais ou responsáveis.

Roupas vulgares, especialmente em lugares inapropriados.

E tantas coisas mais...

Não consigo achar normal tais procedimentos. E sei que tudo isso traz consequências desastrosas, tanto para as pessoas como para a sociedade. 

Penso que a liberdade é  nosso maior dom, mas, tudo que se faz em excesso tem repercussões, e às vezes, podem não ser tão positivas. 

Podemos aprender com os erros, mas, se os evitarmos sofreremos bem menos. 

Cabe aos pais cuidar, orientar e servir de exemplo. 

Não vejo os pais modernos muito preocupados em transmitir valores, salvo as raras exceções. Percebe-se muita acomodação e liberalismos. A educação deixa muito a desejar. Não se tem preparado as crianças e os jovens para a vida, para a decência.

A vida é implacável. Cedo ou tarde serão cobrados. E ninguém pode responder por nós, nem nos livrar de tudo. É preciso saber viver e ensinar aos mais jovens essa bela arte.

Não acho que sou retrógrada. E se for, é problema meu. Mas, não consigo entender certas coisas.

Tenho pena dos jovens e das crianças. Eles são vítimas desse mundo doido.

E tenho dito...

quinta-feira, 30 de junho de 2016

DUDA

  
Quando perguntei para uma pessoa do lugar onde morava Duda, ela ficou surpresa e perguntou:

-          A deficiente? De onde você conhece? – Perguntou. E indicou-me o caminho.

Seguimos, pois não estava só, pelas ruas estreitas da Vila, e a poucos metros localizei a casa da minha amiga. Fomos recebidas com alegria efusiva, característica bastante peculiar a Duda. Conversamos por longo tempo, e quanto mais eu entrava no universo dela, mais intrigada eu ficava.

Olhando para o seu rosto, iluminado por um sorriso espontâneo, recordei da nossa infância. Duda era bem diferente de mim, mas, sempre fora uma grande amiga. Eu gostava de estudar, era tímida, calada, comedida, e Duda, o oposto. Não gostava de estudar, era extrovertida, tagarela, e sem limites.

Lembrei de uma de suas maiores travessuras: morávamos bem perto uma da outra. A minha casa situava-se numa rua transversal à rua em que ela morava. Numa tarde de verão, quando o sol já declinava no horizonte, ouviu-se grande burburinho na rua. Da minha janela, observei grande movimento à frente de sua casa, e corri até lá, para ver o que acontecera.

O lugar onde morávamos era um pequeno povoado, um bairro afastado da cidade, cerca de cinco a sete quilômetros. E imagino que metade da população se postava diante da casa de Duda, naquela tarde.

O que aconteceu? – perguntei a alguém. E responderam-me que pela terceira vez, naquele dia, eram jogadas pedras sobre o telhado da casa. A família já havia investigado, procurado, e não tinha a menor idéia de onde pudessem vir as misteriosas pedras.

O povo do interior nordestino é chegado a crendices, e logo se instalou a idéia de que havia por lá uma alma penada, jogando pedras sobre a casa de Duda. É assombração, diziam. Mandem chamar o padre, ou alguém para benzer a casa. Naquela tarde as pedras não incomodaram mais, porém, no dia seguinte, o pesadelo voltou. E assim, se sucedeu por vários dias, até que, depois de acurada vigilância, descobriu-se a origem das pedras voadoras: Duda. Essa aventura rendeu-lhe uma boa surra, no entanto, não seria uma coisinha assim, sem importância, que lhe tiraria o gosto pelas travessuras.

E Duda aprontou todas, sempre com um sorriso enorme nos lábios, e uma indiscrição fora do comum. Era dinâmica, serelepe. Gostava de correr, de pular, de cavalgar...

Um dia, voltávamos do açude, carregando latas d’água na cabeça. Quando estávamos bem próximas de nossas casas, eu perdi o equilíbrio e a minha lata caiu, derramando toda água, obviamente. A casa dela estava a poucos metros, porém, ela rindo descontroladamente da minha desventura, derramou a água de sua lata, e voltou comigo ao açude. E era assim. Com Duda, as surpresas eram incessantes.

Saí do meu devaneio, do turbilhão de recordações, e vi Duda ali na minha frente, agora adulta, agora deficiente. Passados tantos anos, nos encontrávamos de novo. Todavia, o que me intrigava, era a força que tinha a minha amiga. Foi amputada ainda jovem, devido a um problema de saúde que desconheço, pois nunca lhe perguntei sobre isso, depois, lutou ferrenhamente contra um câncer, e ganhou a luta, e por fim, quando cheia de esperanças se preparava para colocar a prótese da sua perna, que era o seu grande sonho, sofreu um terrível acidente, que machucou seriamente a perna sã.

Duda encarou e encara toda essa, digamos, desventura, com muita garra e determinação. Não se lamenta, não se atormenta, e não se diminui. É cheia de esperanças, de sonhos, e faz a vida acontecer. Conhece suas limitações, porém, não se comporta como um ser imprestável, inútil, pelo contrário, é sinônimo de fortaleza, de alegria, e de coragem.

Cuida da sua casa com esmero. Ela mesma desempenha todas as atividades domésticas: lava, passa, cozinha, limpa... E administra suas parcas finanças e seus interesses com sabedoria. Em suma, um exemplo, uma lição de vida.


Penso que toda energia que existia na Duda criança foi transportada para a Duda adulta, de forma admirável. Quando a vi pela primeira vez, na condição de deficiente, de cadeirante, fiquei penalizada, porém, em poucos minutos, senti vergonha de mim mesma, diante da grande lição de vida que ela me transmitia, sem palavras, mas com  atitudes.

Por Socorro Melo

domingo, 12 de junho de 2016

O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS



Contei meus anos e descobri que terei 
menos tempo para viver daqui 
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me como aquele menino que
recebeu uma bacia de cerejas.As primeiras,
ele chupou displicente, mas percebendo
que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam
egos inflamados. Inquieto-me com invejosos
tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis,
para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias
que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres
de pessoas, que apesar da idade cronológica,
são imaturos.

Detesto fazer acareação de desafetos
que brigaram pelo majestoso cargo de secretário
geral do coral. As pessoas não debatem conteúdos,
apenas os rótulos.

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos,
quero a essência, minha alma tem pressa.

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado
de gente humana, muito humana;
que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora,
não foge de sua mortalidade, caminhar perto de
coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencal!.

Mário de Andrade 

quinta-feira, 19 de maio de 2016

O PINCEL



Quero ser um instrumento na mão de Deus, decidi. Mas, que tipo de instrumento devo ser? Cada qual tem sua funcionalidade, e preciso determinar, a que me proponho, qual será a minha serventia, a minha missão.

Resolvi que quero levar alegria aonde eu for, e esperança. E penso na alegria como uma explosão de cores, e na esperança, como um verde que brilha, que sinaliza positivamente, que aconchega. Por fim, entendi que quero ser um pincel.

O pincel é um instrumento simples, quase imperceptível, nas mãos do pintor. Deixa-se envolver, é flexível, e é capaz de reproduzir na tela o talento e as emoções do artista. Em outras palavras, o pincel retrata sua alma criadora. Ele é apenas um instrumento, sem graça, sem nenhuma engenhosidade admirável, mas que serve de canal para que o autor realize a sua obra.

Ele dança por sobre as cores, na paleta, mergulha em cada uma delas, escolhendo o pigmento certo para colocar luz e beleza sobre a tela, branca e muda.

Deixa rastos por todas as direções, mistura as cores originais, e faz surgirem outras que vão dando forma à inspiração do artista. E por fim, depois da obra pronta, o artista é louvado e reverenciado, porque de fato merece, porque o talento e os atributos são seus. A obra é admirada, premiada, mas do pincel, ninguém se lembra, só o artista, que tem por ele gratidão e amor, por sabê-lo seu instrumento, o canal entre ele e a sua arte.

Eu quero ser um pincel, nas mãos de Deus, o grande Criador. E como pincel, devo ser simples, humilde, discreta, pois quem deve aparecer é o grande artista, e sua obra, não eu.

Quero espalhar sementes de paz, ao meu redor, assim como o pincel espalha as cores por sobre a tela.

Para cada pessoa que cruzar meu caminho, quero ser um sinal de amor, quero ser cor, quero restaurar as marcas do mal. Quero contribuir para dissipar as nuvens cinzentas. Quero ver de volta os sorrisos, quero ver renovadas as esperanças, e me fazer suporte para que meu semelhante cresça, confiando que vale por si, por ser parte preciosa do acervo de Deus, obra prima, singular, cada um, com suas particularidades, suas luzes, suas sombras, sua riqueza, originalidade, fruto da majestosa criação de Deus.

Sim, serei um pincel. Espalharei alegria, e darei a conhecer, com o meu serviço, com a minha vida, as obras de amor de um Deus tão maravilhoso, que me deslumbra com sua grandeza, e me faz feliz só de pensar que me ama, e que conta com o meu serviço, com a minha missão, não porque precise de mim, mas porque enquanto sirvo de pincel, vai me moldando, me transformando, e no fim, vai sorrir ante o meu enlevo, quando finalmente eu entender, que de pincel transformou-me numa pintura de inestimável valor.



Por Socorro Melo

quarta-feira, 27 de abril de 2016

MUNDO, TEMPO, VOZES...

Imagem da Net



Há vida lá fora. Posso ouvir o barulho. Às vezes ele é ensurdecedor. Há vozes. Tantas vozes. Elas nunca parecem agradáveis, ou amigáveis.  São estridentes, autoritárias, egoístas. Nunca são suaves ou conciliadoras. São as vozes do mundo. O mundo gira, no tempo. Mundo e tempo giram juntos. O mundo muda, a cada instante. O tempo não. O tempo segue sua rota, no mesmo ritmo, implacável. E vamos juntos, nessa marcha, girando com mundo e tempo. É como um vento que nos leva. E nem sabemos aonde vamos. Mas, há uma última estação, a estação do tempo. O mundo gira e vai modificando as coisas, chamam a isso de evolução. Tudo muda, todo dia, o tempo todo.  O mundo acelera e tenta ganhar tempo, mas, o tempo não pára, não atrasa, não espera. O vento açoita o tempo.

Há uma força que avança, nunca retrocede. Tudo é fugaz. Efêmero. E a vida é agora. Há vida aqui dentro. Há um sol que se levanta, toda manhã, aqui dentro. Um sol que desperta o vigor, a coragem, a ousadia, a sabedoria e a fé. Um sol que determina, que impulsiona, que instiga. Um sol que se debruça sobre o nada, que lança seus raios no horizonte longínquo, que revela sentimentos bons. Um sol que ajuda a construir, dia após dia, a edificação dessa vida, aqui dentro.

Também aqui dentro há vozes. Muitas vozes. As vozes do mundo que transpõem a barreira e chegam aqui dentro. Elas confundem, atrapalham, dispersam. Mas, há uma voz que se ergue, que é única. Inconfundível, firme, resoluta. Ela faz calar as outras vozes. Apazigua, serena, direciona. Ela é singular. Faço silêncio para ouvi-la. Sua melodia cala as outras vozes. As outras, são somente as outras. Silêncio. Ouço essa voz. Ela fala dentro de mim. Porque existe vida aqui dentro.


Socorro Melo 21/04/2016

domingo, 24 de abril de 2016

ALAMEDA


Imagem da Net


Era pouco mais de seis horas da manhã quando pus os pés na alameda. O verde era o que se podia ver até onde a vista alcançava, naquela manhã serena e ensolarada. Tudo estava tão quieto, mas, parece que tudo comunicava, e a natureza exibia sua majestade sob o sol brando que preguiçosamente despontara.

À minha frente, um tapete dourado de folhas secas se estendia, e imponentes árvores frondosas sombreavam o caminho, que serpenteado de flores, de diversas cores, imprimiam em mim um doce desejo de ficar ali, de tocar, de sentir, a maciez e o perfume que suavemente já se espalhara no ar. Eram flores brancas e delicadas, exuberantes gladíolos vermelhos, hibiscos, violetas e outras silvestres igualmente belas.

Uma brisa mansa fez vibrar aquele lugar, e à medida que eu avançava, grande quietude se fez dentro de mim: um silêncio interior profundo e crescente. Um silêncio que tocava minha sensibilidade, que dizia tudo, naquela voz que não calava, naquela atitude reverente do poeta, que vê o que ninguém mais vê, diante de si, e procura ansiosamente colocar em palavras, descrever a beleza, a simplicidade, o segredo e a magia de tudo que vê, de tudo que apreende, de uma raiz exótica, de um traçado de renda das copas altas, de um esvoaçar de folhas e galhos...

Era como uma passarela. Eu ouvia aplausos, música suave, movimentos sincronizados, gorjeio de passarinhos, borboletas coloridas.... E a luz. A luz da manhã, que me despertava e fazia-me sentir a grandeza do meu ser, e do meu existir. Diante de mim eu percebia e via a admirável graça da vida.

Estremeci. Minha alma transcendeu. Elevei, reverente, uma humilde prece de gratidão ao Criador, enquanto meus olhos admiravam, com ternura, a imensidão, no límpido céu azul.

Por Socorro Melo


21/04/2016.

domingo, 17 de abril de 2016

CONFABULANDO


Hoje, a tarde está nublada e cai uma chuvinha fina. O dia parece triste, mas, há uma algazarra de meninos que jogam bola na rua, acertando, vez por outra, o meu portão. Confesso que isso me irrita. 

Há pouco, estava fazendo uma pesquisa sobre o Paquistão, tentando conhecer algo sobre aquele país, saber como são as ruas, pelas imagens, e como vive aquela sociedade. A curiosidade se deve, em virtude de ter terminado de ler o livro Eu sou Malala, e de ter ficado bastante impressionada. Fiquei chocada com tantas coisas que para nossa cultura são inadmissíveis, porém, descobri que em tantas outras coisas nós somos iguais.

Navegando para lá e para cá vi uma imagem que me chamou a atenção, uma menininha estendendo a mão, num gesto de paz, para um homem armado. Aquela imagem me tocou profundamente. Fico imaginando o quanto o mundo poderia ser melhor se tivéssemos todos, os adultos, o mesmo olhar da criança. Como a vida seria mais fácil, e mais plena. Por que é tão difícil promover a paz? A humanidade já evoluiu tanto, já inventou tantas coisas importantes, já descobriu tantos segredos do universo, já experimentou tantos regimes políticos ineficazes, e por que continua repetindo o mesmo erro, teimosamente, sem dar nenhuma chance à paz.  Às vezes, até parece, que o ser humano nao é tão inteligente quanto eu supunha ser.

Por que se destrói tanto em nome do poder, da ganância, do orgulho, se na verdade tudo aqui é efêmero? Será que ninguém pensa nisso? Não seria mais interessante cultivar a paz e viver em harmonia? Por que fazer tanto males aos  semelhantes? Escravizar, perseguir, aterrorizar... Por que tanta falta de respeito com as crianças? Não consigo entender a maldade feita às crianças, pobres inocentes, tão indefesos.

Malala, a protagonista da história, é um exemplo a ser seguido. Aproveitou as oportunidades que teve, encheu-se de coragem, e também buscou no Divino a sua força. Fez de sua voz a de muitas mulheres, "amordaçadas" por um regime machista, retrógrado. Colocou em risco a própria vida, para protestar contra o abuso e o terror. E foi vencedora. E é vencedora. Como ela mesma diz, tentaram me silenciar, mas, ao invés disso, minha voz ressou no mundo inteiro. Tornou-se pública uma realidade de opressão, violência e descaso do seu mundo, da sua sociedade.

Eu tenho pensado  tanto na situação do nosso país. Um lugar bonito, favorecido com uma fauna e uma flora maravilhosas, um povo tão pacífico, acolhedor, e tão mal administrado. Quanta corrupção! Tanta riqueza desviada, que poderia ter sido utilizada para o bem comum.

Eu entendo que o melhor regime político é sem dúvida a democracia. Mas, como é mal administrada a nossa. Nem parece uma. Não há interesse, parece-me, de se realizar algo de bom pela nação, os representantes do povo apenas cuidam e administram seus próprios interesses. E o pior é a cara de pau com que encaram o povo, e a disfarçatez com que  proferem suas mentiras.

É desanimador. Sabemos que uma grande mudança, e muito séria,  tem que haver, A mentalidade e a cultura de nossa sociedade precisam mudar, senão, vamos à bancarrota em menos tempo do que imaginamos.

(Socorro Melo).

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

COMPAIXÃO


Huguinho ouviu falar de compaixão, na Igreja. Chegou em casa e meio desconfiado perguntou à mãe:
        Mamãe, o que é compaixão?
A mãe, sem saber bem como explicar, respondeu:
        É quando a gente se coloca no lugar do outro, e  consegue sentir a sua dor... entendeu?
Pensativo e nada convencido,  o menino respondeu:
        Não. Não entendi. Como é isso de sentir a dor do outro?
Uma dia você vai compreender. Quando você crescer será mais fácil.
Dali a alguns dias, apenas, o Huguinho se deparou, no Shopping, com uma cena que lhe marcou seriamente. Caminhava ele em direção às salas de cinema, quando, a meio do caminho, ouviu um pai, que ao celular recebia uma notícia triste e repassava para o seu filho que estava ali do lado, e o menino, que devia ter a mesma idade de Huguinho, recebeu a notícia com grande aflição. Ele chorava muito, se contorcia, e pedia para o pai dizer que aquilo não era verdade.
Huguinho, a muito custo, continuou seu caminho, porém, depois de ver a cena do menino, sentiu uma dor no peito, inexplicável. Dos seus olhos brotaram lágrimas. Ele nem conhecia o menino. Nem sabia o teor da notícia que recebera, mas, sentiu a dor que ele sentia. Não saberia explicar. Ao  mesmo tempo que se afastava da cena, olhava para trás, na esperança de ver o menino e saber ao certo o que acontecera. E aquela dor estranha que sentia o incomodava.
Ato seguido, num lampejo, Huguinho pensou: COMPAIXÃO.
Quando chegou em casa, no fim da tarde, procurou a mãe e disse: já compreendi, mamãe. Eu agora sei o que é compaixão.
E a mãe sorriu, feliz e curiosa.

(Socorro Melo)

sábado, 6 de fevereiro de 2016

MERRICK


Lembrei-me de um filme, que assisti há bastante tempo. É um filme belíssimo, e que me marcou profundamente, tanto que nunca o esqueci. Esse filme, de 1980, foi baseado em fatos reais. E conta a história de um homem, um inglês, que tinha uma doença rara, de nascença: uma neurofibromatose múltipla. Seu corpo era quase que totalmente deformado. A deformidade era tão agressiva, que incutia certa repulsa em quem o olhasse, e deixava-lhe com um aspecto animalesco, que lembrava um elefante, por isto o título do filme: O Homem Elefante. A doença foi posteriormente diagnosticada de síndrome de proteus.

No entanto, era uma pessoa humana intensa, de grande sensibilidade, e beleza interior, e que cativava àqueles que dele se aproximavam. Chamava-se Joseph Merrick. Conta a história, que Merrick foi vítima de pessoas inescrupulosas, que desrespeitosamente se aproveitaram da sua fragilidade, das suas limitações, e o escravizaram de forma absurdamente desumana. Os tais algozes, exibiam-no em um circo de aberrações, como uma aberração da natureza. Era apresentado, como a versão mais degradante do ser humano, destituindo-lhe de toda dignidade humana. Chamava-o de o homem elefante, e o tratavam como a um animal. No circo, era alimentado apenas com batatas, assim como os elefantes, e era constantemente espancado.

Essa história arranca lágrimas até dos mais duros corações. No enredo, Merrick é descoberto por um médico anatomista, Doutor Frederick Treves, em uma das apresentações do circo, que o internou em um Hospital e passou a estudar sua enfermidade, bem como a lutar pela sua liberdade, e pela consecução dos seus direitos, e da sua dignidade. O filme tem um desfecho belo e poético.

Diante da história de Merrick contada no filme, e de tantos casos de pessoas deficientes, que vivem seus dramas, suas escravizações, e a usurpação de seus direitos, compete a nós cidadãos, cobrar dos nossos representantes, ações governamentais voltadas para a pessoa deficiente. Que lhes confira proteção e segurança.

(Socorro Melo).

sábado, 9 de janeiro de 2016

PEDREGULHO


Porta estreita e caminho apertado, significam desconforto, dificuldades, falta de espaço para se dar vazão a alguma coisa.
E é dessa imagem que Jesus se utiliza para mostrar a passagem que conduz à vida plena. A porta estreita e o caminho apertado que exigem sacrifícios de quem por eles adentra. Há momentos em que será preciso se espremer para dar lugar à outros também passarem.
E é exatamente assim que acontece. Quando nos empenhamos em levar uma vida de virtudes, passamos a ser perseguidos. Perseguições sutis, desafios que parece não fazer sentido. Aí, bate um desânimo, uma apreensão, como se alguma coisa conspirasse contra nós, e vem a tentação de largar tudo e mudar de rota, ou de tática.
Caminho difícil é o caminho estreito. Sempre estamos encarando alguém de mal humor, ou nos atritando com algo que se atira à nossa frente, ou escorregando e voltando ao ponto de partida, e como é custoso dar um passo à frente... Quantas vezes é preciso cair para que alguém prossiga, silenciar para que alguém fale, emudecer para que os ânimos se acalmem, e ferir os pés nos pedregulhos vivos que estão dispersos …
E dói tanto. O coração chora, a alma sangra, o espírito se inquieta e quase se desespera. E descobrimos o quanto somos frágeis e o quanto ainda estamos distantes da chegada.
Esse é o caminho do amadurecimento. Como disse Santa Teresa de Ávila, o caminho da perfeição. Nele somos forjados, somos convidados a aprender a ter o domínio sobre nós mesmos, sobre nossas emoções e sentimentos, sobre nossas atitudes, e a reconhecer os nossos equívocos, as nossas fragilidades e infantilidades.
Nosso orgulho e nossa vaidade estão sempre a nos derrubar. É importante ter objetivo e determinação, saber o que queremos e onde almejamos chegar. É preciso reinventar, recolher os cacos e retomar a caminhada tantas vezes quanto se faça necessário. E ter em mente que trata-se do caminho que conduz à vida, e isso, por si só, basta. Certa vez Jesus disse: “Aquele que se põe no arado e olha para trás, não está apto para o reino de Deus”. Estamos?

 (Socorro Melo).

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

PESSOA BLINDADA


Pessoa blindada. É o que parece. Levanta uma muralha de indiferença ao seu redor, que não há diálogo que derrube.

Pessoa blindada é imprevisível. Quando tudo vai bem, ótima pessoa: sabe ser cordial, receptiva. Quando contrariada, se revela: descompensada, azeda, mal agradecida.

Imatura? Imatura. Meio selvagem. Não sabe utilizar bem o código de comunicação. Se uma palavra lhe é dirigida, contra-ataca, com ofensas. Ofensas que são flechas afiadas, que atingem o “inimigo” bem dentro da alma, e causa um estrago enorme.

Pessoa blindada é seca. Não consegue sentir ou saber o que provoca uma poesia. Não canta. Não dança. Não sorri. Grunhe.

Blindada. Não sabe oferecer uma flor. Nem sequer aprecia a beleza das flores. Nem do luar. Nem se encanta com as estrelas. Não diz eu te amo. Não abraça. É rude. Selvagem. Não faz mimos a quem ama. Ama? É desinteressada. Opaca. Sem brilho.

Pessoa blindada se exclui. Se fecha no comodismo. Gosta de ser servida. Não se compraz com o que é belo. Aliás, nem sabe o que é o belo. Não se deixa amar. Espanta. É uma ilha, quando poderia ser um mar.

Não se ama. Não sabe amar. Não é livre e tolhe a liberdade dos outros. Pessoa blindada. É uma ostra. Não, ostra não. A ostra tem a nobreza de produzir a pérola, mediante o sofrimento. Pessoa blindada não. Não sabe dividir, não sabe contemplar, não soma, não agrega valores. Não fala, não ouve, não vê, não sabe viver... Não se enlaça. Não sabe ser feliz. Que lástima!

(Socorro Melo)


domingo, 27 de dezembro de 2015

POR TRÁS DE CADA LÁGRIMA...




Se vê  pesadas correntes
Rastro de dor, desespero
Anseios de vida urgentes

Se vê fome e sede hostis
Tratamentos desumanos
E preconceitos vis

Se vê feridas abertas
Abandono e exclusão
E injustiças molestas

Se vê crianças mutiladas
Vítimas de guerras insanas
E miséria escancarada

Se vê vergonha contida
Desrespeito e intolerância
Com a dignidade da vida

Se vê gritos de dor
Apelos de esperança
E mendicância de amor.

Socorro Melo




quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O NUMINOSO EM MIM

Participação na VI Interação Fraterna de Natal - Tema: O numinoso em mim, promovido pela amiga Rosélia do Blog http://www.idade-espiritual.com.br/

Um tema rico de conteúdos, de experiências, que podem ser apreciadas nos Blogs participantes. Muito grata, Rosélia, pelo convite. Espero que minha humilde participação tenha atendido a proposta da BC. 




O NUMINOSO EM MIM

A percepção do sagrado despertou em mim muito cedo. Sempre gostei de silêncio, e de quietude. Sempre me chamou a atenção situações simples que talvez para a maioria das pessoas não tivesse valor algum, mas que para mim diziam alguma coisa. Gostava de ficar horas fitando as estrelas, e imaginando o que haveria por trás delas, porque, uma voz interior me dizia que havia Alguém maior para além delas...

Fui crescendo com essa certeza. Era de dentro de mim que ela brotava. Eu não tive influência nenhuma. Pensava muito. Questionava muito. Não encontrava respostas.
Participava da santa Missa com respeito, com reverência, mas sem consciência do quanto era sublime. Por muito tempo foi assim. Mas eu sentia que faltava algo, não poderia ser somente aquilo que eu via, tudo era muito ritual.

E daí começou a minha busca de Deus. Eu não queria crer que Deus se manifestara apenas aos homens do passado, da antiga aliança. Ele não poderia ter abandonado a humanidade, por certo Ele se manifestaria de alguma forma, no nosso tempo. Eu aprendi que vivemos o tempo do Espírito Santo, e que Ele é o doador dos dons, e porque eu não via nada? Nada acontecia, era tudo tão ritual.

A fome e a sede de Deus aumentavam. A vontade de conhecê-lo ainda mais. E daí fui devorando livros. E mais livros. A princípio sem uma meta definida, porém, depois mais selecionados. Nunca tive nenhuma direção espiritual. Mas, mesmo assim fui despertando para a mística. E na busca desse conhecimento fui assimilando respostas para tantas de minhas perguntas.

Li sobre todas, ou quase todas as principais religiões do mundo. Até participei, por curiosidade, acima de tudo, de cultos de outros credos diferentes do meu, e até simpatizei com alguns deles, mas, nunca senti vontade de mudar de religião, eu só queria encontrar as respostas dentro daquela que sempre professei. E assim aconteceu.

Por um tempo me descuidei da fé. Mas, mesmo nesse tempo percebia a presença de Deus me conduzindo. E num momento de grande angústia, de vazio profundo, de desesperança, eu encontrei Deus. Quando eu já não sabia como agir na minha vida. Quando a tristeza tomava conta de mim. Do meu vazio eu clamei a Deus, e Ele só precisava disso para me preencher.

Do nada me apareceu a oportunidade de fazer uma peregrinação, e eu a abracei com todas as minhas forças. Foi o jeito mais terno e suave que já vi de um Pai reconduzir um filho de volta para casa, um filho que merecia talvez uns bons puxões de orelhas.

A peregrinação foi uma bênção, uma unção. Derramei diante de Nossa Senhora de Fátima, lá em Fátima, a minha pequenez, a minha ignorância, a minha insegurança, e pedi que me ajudasse a fazer a experiência de Deus, depois, lá em Assis, pedi a são Francisco que me ajudasse a abrir os olhos da fé, e ele me ajudou. Firmei propósitos de mudança. Ao retornar, conheci a espiritualidade franciscana, o que muito  ajudou na minha conversão.

Sim, porque apesar de ser participante da Igreja eu ainda não era convertida, eu não tinha despertado para a grandeza da espiritualidade. Apesar do movimento íntimo do meu ser, da minha busca constante, nada era ainda claro, eu não enxergava o outro lado.

Após a peregrinação comecei a colocar alguns pontos nos “is”. Comecei a estruturar minha vida para se adaptar à mudança que eu pretendia fazer na minha rotina. Procurei caminhos que me levassem ao crescimento espiritual, e me lancei com fé e esperança nesses caminhos.

Um dos caminhos que eu encontrei foi a meditação cristã, oração contemplativa, com a qual eu me identifiquei  plenamente. Outro caminho foi a Lectio Divina, e um terceiro muito rico: a vida dos santos, especialmente os grandes místicos da igreja (S. Teresa de Ávila, S. João da Cruz, S. Pedro de Alcântara, S. Gemma Galgani, S. Verônica Giuliani, S. Pe.Pio) porque é neles que eu encontro mais fortemente os sinais da presença de  Deus no meio de nós.

A meditação me ensinou a buscar Deus dentro de mim mesma, pois, o meu coração é a sua morada, eu sou templo do Espírito Santo. Despertou-me para realidades até então desconhecidas, para o auto conhecimento. E assim, convicta agora dessa realidade espiritual que já começo gozar pela fé, entre quedas e avanços, vou fazendo a minha história com Deus, em Jesus, Ele que é a minha luz, a minha razão de ser, e a minha meta.

E assim passei a entender a parábola da pedra preciosa escondida no campo... E hoje faço a experiência de viver com Deus. Não existe maior conforto.

(Socorro Melo)


Desejo a todos os leitores um feliz e abençoado Natal!


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

OLHA NOS MEUS OLHOS

Certa feita participei de um grande Seminário, na área de Recursos Humanos. E uma das oficinas, trabalhada por uma famosa psicóloga, foi muito marcante. Primeiro, pela desenvoltura com que ela conduzia os trabalhos, e segundo, porque parecia que ela dizia tudo o que queríamos ouvir, ou que precisávamos ouvir. Ela era agradável, atenciosa, e tinha uma larga experiência profissional.

E num dado momento, anunciou que faria conosco uma dinâmica de grupo. Ficamos entre apreensivos e curiosos, pois, quem é da área de Recursos Humanos, conhece um pouco os métodos de trabalho dos psicólogos, que por vezes, são bizarros.

Posicionamo-nos, conforme ela nos orientou, de dois em dois, um defronte pro outro, e segurando nas mãos, como se fossemos dançar a famosa peneirinha das quadrilhas matutas do Nordeste. Nesse ponto já estávamos rindo muito, e nos balançando, a exemplo da dança acima citada.

A instrutora pediu silêncio e atenção, e vendo que já estávamos posicionados, enunciou o procedimento da dinâmica, que era o seguinte: deveríamos nos manter sérios, e durante um tempo determinado por ela, que não era muito, nos olharmos nos olhos uns dos outros... E segurar o olhar.

Parecia tão simples, mais não foi. Até então, ríamos e brincávamos, e estávamos à vontade, porém, a partir do momento em que tentamos cumprir nossa tarefa, a coisa se complicou. Todos nós tivemos dificuldades de olharmo-nos nos olhos uns dos outros.

Uns riam muito, outros se curvavam, alguns tentavam e quando parecia que ia dar certo explodiam, e muitos declararam que não conseguiriam. A psicóloga insistiu, e não arredou o pé, até que nos enfileirássemos de novo, pois já havíamos tumultuado o ambiente.

Recomeçamos do zero. E dessa vez tensos, apreensivos...  Fomos de novo orientados, e aos poucos, um grande silêncio se fez na sala, quebrado apenas por alguns
abafados sorrisinhos. E dali a instantes, olhando-nos nos olhos, por frações de segundos, pois era tudo que conseguíamos, via-se torrentes de lágrimas brotarem de todos os olhos...

Por que este ato nos fragiliza tanto? Por que é tão difícil olhar nos olhos de outra pessoa? A sensação de encarar o outro face a face, e sustentar o seu olhar, é a mesma de nos despir diante de alguém. É como se o outro pudesse descobrir, através dos nossos olhos, todos os nossos segredos, como se nossa alma estivesse desnuda, como se o nosso maior tesouro estivesse à mostra.

Um ditado popular diz que ”os olhos, são o espelho da alma”, e é bem pertinente essa imagem. Ao olharmos nos olhos de outra pessoa, entregamo-nos. É um gesto muito forte, diante do qual, parece que mostramos nossa verdadeira identidade, nossas intenções, e fantasias.

E só vamos conseguir olhar, de fato, nos olhos de quem amamos, ou de quem nos ama, pois ali encontramos aconchego. Sabemos que quem nos ama, de verdade, não nos julga, e nos aceita como somos, com nossas imperfeições.

Quando o nosso olhar se cruza com o de alguém, que não é nosso afeto, a tendência é desviarmos. É como se estivéssemos invadindo uma propriedade alheia, ou sendo invadidos.

E assim, no fim dos trabalhos, olhando-nos desconfiados uns para os outros, nos abraçamos, e guardamos conosco, cada um, o instante mágico daquela viagem, em que navegamos para dentro da alma de nossos colegas, e colhemos um pouco da sensibilidade, que por tantos é guardada a sete chaves. E foi muito rica a conclusão dessa atividade. Foi há muito tempo.

(Socorro Melo)



terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O POVOADO


O ônibus velho sacolejava enquanto ia cortando a estradinha de terra, e pelo barulho que fazia, dir-se-ia que na próxima curva se despedaçaria. Os bancos rasgados, sujos e empoeirados, as janelas quebradas, davam conta do quanto já havia passado o seu tempo de vida útil, mas, para aquele povoado, onde não havia nenhuma fiscalização, ainda era o principal e único meio de transporte coletivo,  que o ligava à cidade.

Eu estava absorta na paisagem que se descortinava à minha frente, sempre tão bela, encantada com o verde brilhante ao sol do meio dia, vendo passar ao lado as casinhas de taipa, outras de alpendres, e as recentes fazendas bem cuidadas. Vez por outra passava um barreiro quase seco, ou com água lamacenta, animais pastando, e as lembranças iam surgindo cada vez mais fortes em minha mente.
Há tantos anos eu fazia aquele percurso, vez em quando, e involuntariamente as janelas da minha memória se abriam para me presentear com fatos antigos, momentos vividos na mais tenra idade, em companhia dos meus jovens pais e da minha família.

E eu recordava nitidamente da casa de farinha, me via amedrontada à margem do rio Ipojuca num dia de enchente olhando as jangadas, via as mulheres artesãs confeccionando utensílios de barro, sentia o impacto dos tiros de bacamarte na noite de São João, a emoção do coco de roda nas festas juninas, via as bonecas de pano que minha madrinha fazia,  a procissão de São Sebastião percorrendo as poucas ruas do povoado, os pagadores de promessa com suas fitas vermelhas em volta do corpo, o presépio da Igrejinha que sempre me encantava, as brincadeiras e jogos infantis à noite sob um céu estrelado, o zabumbeiro e o homem do pífano que saíam de casa em casa recolhendo doações para o leilão da festa do padroeiro, os bolos de mandioca assados na palha da bananeira, as crianças beijando o altar de rosas de Nossa Senhora nas animadas noites de maio e benditos piedosos das devoções da semana santa.

E quando um nó já se formava na minha garganta, e algumas lágrimas saudosas teimavam em transbordar dos olhos, aquele povoado amigo, berço de minhas origens, se fazia notar à frente, de braços abertos para me receber, depois de me despertar uma doce comoção. Quase nada havia mudado. Ou não? Aquela serra alta e bonita que lhe serve de encosta continuava lá, com sua exuberância, mas as casinhas antigas já denotavam sinais de modernidade, já se via uma pracinha bem cuidada, um supermercado, colégios, barzinhos, e os celulares e Internet indicando que o futuro também chegara ali.

Não era mais aquele lugar pacato da minha infância, onde sequer tinha televisão. Algumas tradições se mantinham, mas, mesmo os costumes  haviam mudado muito. Porém, mudança alguma foi capaz de apagar a história que trago dentro de mim, tendo sido aquele pequeno pedaço de chão, o cenário de grandes alegrias do meu tempo de menina.


(Socorro Melo)

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

CONTO: DESENCANTO


Quando ele cruzou o limiar da porta, e o vi pelas costas, levando consigo os meus sonhos de um amor ideal, minhas esperanças de uma vida perfeita, minhas ilusões, desmoronei. O chão abriu-se sob os meus pés, e me senti tragada. Estava tudo acabado.

A desilusão fechou-me as portas da alegria, e da vontade de viver, e abriu-se uma torrente de lágrimas.  Eu mal conseguia acreditar que pudesse ser verdade tudo o que estava me acontecendo. Por vezes, fechava os olhos, na esperança de ao acordar, constatar que tudo não passava de um terrível pesadelo... Mas, não era.

A vida perdera as cores, tudo me parecia cinzento, sem sentido. Desaparecera o brilho dos meus olhos, e eu já não ouvia a música suave que cantava o meu coração.

Desmoronei. Que dor lancinante! Nunca imaginei que o desespero causasse uma dor tão doída e tão profunda...

De angústia e tristeza foram pincelados os meus dias. E o meu coração inconsolável, gemia, inconformado pela perda, e pela saudade incontida.

Tudo em que acreditei, tudo o que investi, tudo que mais amei, se dissipava da minha vida como fumaça ao vento. 

Caí, me prostrei. Expus as feridas da minha alma. Deixei me conduzir pela solidão. Debati-me à procura de veredas, de caminhos amenos, porém, nada aplacava a minha dor. Por momentos tornei-me fria, insensível, para logo após, tatear à procura de esperanças, e de paz interior.

Sofri horrores, por dias que pareceram sem fim. E me permitir ficar assim, até me esvaziar de toda dor, e perceber que a vida é mais que o desengano.

Mas aprendi, às duras penas, e o desengano me fez compreender, que a vida é tecida na imprevisibilidade, por pessoas falíveis, com qualidades e defeitos, e que, portanto, está sujeita aos desencontros, e desencantos. 

Entendi que errei quando me enchi de expectativas, e que a vida não é um conto de fadas, a vida é real e essa realidade pode ser dura, muitas vezes.

Um dia a dor havia sarado. Não havia sequelas. Não restaram lágrimas, nem nada negativo. Cresci. Venci a desilusão. 

Mas, ainda acho que a vida sem encanto não tem graça nenhuma. O encanto é a poesia. Não importa se por causa disso precise sofrer, o importante é viver grandes emoções.
   
(Socorro Melo)



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

FRAGILIDADE


Ontem, pela primeira vez, eu visitei uma UTI neo-natal. Fiquei sensibilizada com aqueles serzinhos indefesos e frágeis, mas, ao mesmo tempo fortes, lutando pela vida. Alguns entubados, outros precisando usar sondas para receberem o alimento, e todos dependentes de aparelhos e equipamentos médicos.

Bem ao lado da UTI neo-natal, numa sala chamada vip, que de vip só tem o nome, ficam as mamães. Todas apreensivas, cansadas, marcadas pelo sofrimento da espera. Algumas já há bastante tempo ali, ao lado dos seus bebés, aguardando o grande dia de voltar pra casa. Todas têm apenas um desejo, verem seus filhinhos em condições de levar vida normal. E todas carregam no peito um amor imensurável por aquelas criaturinhas frágeis que ainda estão em processo de formação e de fortalecimento.

A UTI neo-natal mexeu  com minha estrutura. Eu nunca havia pensado, de verdade, como seria. Pareceu-me um santuário. Um lugar sagrado. Apesar da fragilidade de cada um, senti uma energia boa, positiva, uma ternura pairando no ar. Senti uma força estranha movendo aquele lugar, uma força que sozinhos aqueles bebezinhos não teriam. E percebi a importância do trabalho daquelas profissionais, tão dedicadas, delicadas, cuidadosas, um pouco mãe de cada um. 

Em contrapartida, hoje, quando fazia minha caminhada matinal, ultrapassei uma senhora magrinha, bem velhinha, que caminhava a passos lentos, levando numa mão uma garrafinha de água, e na outra uma sombrinha. Pareceu-me tão frágil, talvez ainda mais por ser encurvada. E fiquei observando-a. E ela caminhava até bem, dentro das suas limitações. Era a luta por uma melhor qualidade de vida, certamente.

Achei tão bela a atitude daquela senhora, de estar às seis da manhã, naquela idade, com tantas limitações, se exercitando. Senti que uma força estranha movia aquela mulher, o desejo de viver, de aproveitar cada instante procurando se melhorar.

Dois extremos. O começo e o fim da vida. A primavera e o outono. Ambos tão permeados pela fragilidade. E assim é o nosso caminho. Tão dependentes uns dos outros. Tão frágeis. Tão pequenos.

Mas, no meio do percurso nos enchemos de orgulho, de insensatez, e passamos a acreditar que somos independentes, implacáveis, poderosos... Qual nada!  Ai de nós se não houvesse uma força estranha a nos mover, a nos direcionar, e a dar maior sentido às nossas vidas.

(Socorro Melo).

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

ERA SÓ UM MENINO


Era só um menino. Um menino sírio...
Uma das imagens que mais me emocionou, nesses dias, foi a de um menino sírio, gravemente ferido, que antes de morrer  disse, resoluto:  eu vou contar tudo a Deus...
Sim, menino, conte tudo mesmo, conte o que os homens tem feito de nossa terra, o quanto a tem destruído, e o quanto tem desrespeitado a criação movidos por uma cobiça insana e uma sede desvairada de poder...
Conte que toda a riqueza se concentra nas mãos de poucos, enquanto milhares de milhares são excluídos das sociedades, tratados como lixo, descartados...
Conte como morrem de fome e o quanto são violentadas e arrancadas a esperança e a inocência de tantas crianças assim como você...
Conte o quanto, pela força, os malvados escravizam os mais fracos...
Conte o quanto é ridicularizado o homem justo, honesto, o homem de paz...
Conte, como barbaramente são mortos tantos cristãos, simplesmente porque  se propuseram a seguir o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, a fazer o bem e a  viver o amor...
Conte, o quanto se corrompem, se animalizam, o quanto mentem, o quanto jogam na lama a dignidade de filhos de Deus, que por Ele foi dada a cada um...
Conte, conte mesmo, conte tudo... Deus é amigo das crianças e vai lhe ouvir, e quando lhe aprouver, vai por um fim nesta balbúrdia.  Ele vai gostar de saber o que acontece por aqui...
Você, como tantos outros meninos do mundo inteiro: africanos, iraquianos, latinos, foram e são violentamente feridos, abusados, invadidos, escravizados, assassinados... Vocês, só meninos...
Eles mataram o seu corpo, mas, não podem matar a sua Alma. Voa para Deus, voa ao encontro da eternidade, da segurança e da paz, e nunca mais se assuste com o clarão das armas, elas não mais lhe atingirão... Agora você está seguro e a única visão de luz que terá será o brilho do próprio Deus, o brilho da luz que não se apaga...
Conte tudo para Deus, e não esqueça de interceder por tantos outros meninos e meninas que continuam chorando, amedrontados, sonhando com um refúgio seguro e com a liberdade, com o direito de brincar, de ir à escola, de serem felizes no seio de suas famílias.
Conte, conte mesmo, conte tudo...
À você, dedico este singelo texto e minhas orações.
(Socorro Melo)