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Ele está beirando os 80. Desde sempre gostou de
crianças. Tem para com elas grande carinho. Gosta de brincar, de pegar no colo,
de abraçar, de mimar com doces. Assim foi com os filhos, com os netos, e com
todas as crianças que cruzaram (ou cruzem) o seu caminho.
Depois da aposentadoria adquiriu o hábito de passar grande parte do tempo sentado num
banquinho à frente de casa, ou nas imediações. Dali fica vendo o movimento,
cumprimentando as pessoas, proseando com algumas, resmungando contra outras,
quando a prosa não lhe agrada. Todas as pessoas que passam por aquele
quarteirão, o conhecem, o cumprimentam, até as crianças, aliás, principalmente
elas, que são as mais bem vindas e melhor acolhidas.
Elas o chamam pelo nome. Sempre param para receber
um afago, um saco de pipocas, balas…
Uma menininha em especial, que por ali passa
frequentemente acompanhada da mãe, o chama de vovô. Certa vez, num fim de tarde
de verão, quando voltava da Padaria com a mãe, vendo-o sentado ali, sozinho, no
seu banquinho, correu para lhe dar o abraço costumeiro.
Deixou-se ficar por uns instantes, enquanto ele lhe
afagava os cabelos, então, num dado momento, voltou-se para a mãe e disse:
- Mamãe, vamos levar o vovô para a nossa casa,
pois, ele mora sozinho na rua, e isso não é bom.
Não sei o que lhe disse a mãe, de que forma
comunicou que ele não era um maior abandonado, de que não precisava de adoção,
só sei que me encantou a generosidade sincera e a forma humilde e simples
de resolver as injustiças, demonstrando
a grandiosidade do seu coraçãozinho.
Solidarizou-se com o que ela pensou ser uma
necessidade do outro, quis proteger quem lhe parecia abandonado, quis oferecer
sua própria casa, o seu conforto, a sua companhia. Quis retribuir a confiança,
o carinho e a ternura que lhe foram por ele ofertados.
Que Deus conserve nessa criança essas sementes do
mais puro amor.
Não foi à toa que o Mestre Jesus enfatizou que, “quem
não for como as crianças não herdará o reino
dos céus”.
Uma grande lição de amor, pura e desinteressada.
E ele, por acaso, é meu pai.
Por Socorro Melo









