Pegadas de Jesus

Pegadas de Jesus

quinta-feira, 16 de março de 2017

NEBLINA EM FIM DE TARDE



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Aprecio fins de tardes. Eles exercem um poder sobre minha sensibilidade. Deleito-me com o belo que deles advém.  Hoje vivi uma tarde inesquecível, digna de nota. Não porque tenha sido soberba ou extraordinária, mas , porque foi simples e encantadora.

Éramos doze, e íamos conhecer um lugar especial, fruto de um projeto sonhado junto.

Vivenciamos uma manhã produtiva, compartilhada,  e agora deslizávamos pista à fora rumo ao nosso cantinho.
Adentramos por uma estradinha de terra, e enquanto avançávamos, nuvens de chuva mudavam as características do tempo.

Em poucos instantes caía uma chuva fina.

A estrada era ladeada por cercas de madeira com arame farpado, e de um lado e outro víamos os rebanhos pastando e o mugido dos animais. O verde já coloria parte da vegetação, atingida severamente pelos sete anos de seca na região.

Avistamos ipês amarelos,  jasmins brancos, flamboiãs, e outras espécies de flores silvestres que íam ficando para trás enquanto seguíamos nosso caminho. A névoa nos envolvia cada vez mais.

Passamos pelo Riacho do Mel, subimos a Serra do Sapato, até finalmente desembocarmos em Várzea Grande, nosso destino. Ficávamos imaginando, e tentando adivinhar, o porquê do nome de cada um desses sítios.

De um lugar alto, tínhamos a visão geral do terreno que fomos visitar. Era amplo e acidentado e enriquecido por grandes árvores, algumas frondosas. Víamos cajueiros, umbuzeiros, e mais algumas que não saberia nominar.

A chuva se intensificou, o que não nos desestimulou. Percorremos o imenso terreno com alegria e espírito de aventura, sem nos importar com a lama, com o frio, ou o que quer que fosse. Sonhávamos juntos com o nosso projeto, e apontamos para cada direção em que imaginamos devam ser construídos os futuros prédios.

O silêncio era a riqueza daquele lugar, só quebrado pelas nossas próprias vozes, ou pelas vozes da natureza. A chuva cessou, porém a neblina se intensificou.

No caminho de volta víamos apenas as sombras das árvores, dos animais, e das casas. Tudo estava coberto de branco. Uma chuva fininha se fazia ouvir, de forma harmoniosa, numa cadência mais que perfeita. Era uma visão mágica. Um quadro pintado pelo Criador. Um mimo  para os nossos olhos. Um fim de tarde que  Deus nos concedeu a graça de apreciar o belo, o inestimável. Um fim de tarde envolto em neblina.

Por Socorro Melo, 12 mar 2017


quinta-feira, 2 de março de 2017

BAMBOLÊ

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Eu olhava admirada as minhas amigas brincando de bambolê, e sentia uma certa inveja, porque eu, de todas, era a única que não conseguia girar o bambolê em volta do corpo, com aquela desenvoltura e graciosidade.  Não levava o menor jeito. Não tinha ginga. Não tinha jogo de cintura.

Tentava, tentava, mas, era um tanto desengonçada, diria mesmo que parecia uma estaca, e o bambolê em minhas mãos perdia toda graça, todo encanto.

Nunca consegui, nem mesmo quando adulta, na Academia.

No entanto, fui aos poucos desenvolvendo um outro tipo de jogo de cintura, uma outra ginga, que me fez vencer muitos obstáculos, superar muitas situações estressantes e constrangedoras, um jeito todo especial de lidar com as pessoas.

Pessoas são diferentes. Cada uma é um mundo, apesar de terem todas muito em comum. Esta foi a minha melhor sacada. Inconscientemente comecei a estudar cada tipo, cada comportamento, cada reação, e assim pude desenvolver uma  maneira toda especial de tratar a todas e a cada uma.

Pessoas são únicas na sua essência. E não gostam de ser apenas “uma na multidão”. Gostam de serem identificadas, valorizadas, reconhecidas, dignificadas.

Saber chegar até elas, lapidá-las, compreendê-las, exige tempo e paciência. Umas são dóceis, escancaradas, leves, outras são como ostras, fechadas, mas guardam pérolas dentro de si, outras são atraentes, chamativas, algumas amargas, chatas, superficiais, enfim.

O meu laboratório mais rico foi o ambiente de trabalho. Aliás, os vários ambientes de trabalho. Pessoas de toda sorte chegavam por lá. Era uma diversidade surpreendente de tipos. Relacionei-me com um incontável número, direta e/ou indiretamente.

O quotidiano me ensinou a pisar em cada terreno sem medo. Por vezes fui incompreendida, mas, na grande maioria bem acolhida. Uns passaram como um vento, sem deixar marcas nem lembranças, outras guardo no coração com ternura e gratidão. No entanto, todas, construímos algo juntos.

Resumindo, para acolher pessoas, é necessário conhecer suas individualidades, suas características, suas habilidades, seus pontos fracos e seus pontos fortes, ou simplesmente enaltecê-las.

Não retrucar sem fortes argumentos.Saber calar. Acatar as ideias. Saber convencer. Elogiar. Aconselhar. Apontar erros sem humilhar. Dividir tarefas. Sabe ouvir. Perdoar ofensas. Ser solidário nas situações mais críticas. Prezar pela arte da boa convivência. Para isso precisa-se de ginga, de jogo de cintura.

Penso que fui um pouco bambolê na minha vida profissional, e acho que esse foi o principal papel de toda minha jornada, pois, angariei muitos e bons amigos. 

Por Socorro Melo

 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

ENCONTRO



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Pé ante pé eu busco o meu refúgio. 
O sol ainda nem despontou, nem se ouve o canto dos passarinhos.  
O silêncio reina poderoso.
E aqui estou, para o nosso encontro, amado de minha alma, ainda sonolenta, na penumbra.
Sento-me e aguardo.
Fecho os olhos. Respiro.
Uma leveza me domina
Chamo o teu nome, repetidas vezes, e me deixo ficar, esquecida de mim .
Por vezes, um turbilhão de pensamentos me assaltam. Mas eu insisto em te chamar.
E eu respiro, e te chamo. Respiro, e te chamo. Respiro, e te chamo.
Não há mais nada à minha volta. Tudo é silêncio. Vazio.
Uma fagulha estala dentro de mim. E vou seguindo, e chamando.
Vou viajando,  viajando,  para dentro do meu ser
Respiro, e te chamo. Respiro, e te chamo.
E sinto a tua presença, o teu cheiro
Mergulho em mim mesma, para te encontrar 
Lá fora uma luz tênue se derrama. Amanhece. 
E cá dentro se acende uma chama. Eu te alcanço. 
Por Socorro Melo

“Não te sintas abandonado, porque sempre estou contigo

Não te deixarei, não posso te deixar, porque és minha criação e meu produto, minha filha, meu filho, meu propósito, e Eu mesmo… 

Portanto, me chame, onde e quando você estiver separado da parte que EU SOU, e EU estarei lá”

(Do filme Conversações com Deus)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

COINCIDÊNCIA?



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Acordei  sobressaltada, um pouco trêmula, coração apertado, e com uma sensação de  medo, por causa do sonho. Parecera tão real, e isso era o que mais amedrontava . Eu vira meu filho, numa cadeira de rodas, paralisado, com um semblante triste, pesado. Ele vestia uma camisa de time de futebol, listrada, de azul e branco.

Deixei-me ficar por alguns instantes pensando naquilo, imaginando o que poderia significar. Tínhamos uma viagem programada para dali a poucos dias, íamos ver a neve, e aquele sonho me assustara.
Afastei dos meus pensamentos aquela imagem, fora apenas um sonho, na verdade um pesadelo. Mas, vez por outra  aquilo me incomodava.

Chegou o dia da viagem e com ele os preparativos, as expectativas, as providências a serem tomadas. Tudo ocorreu de forma tranquila, e lá fomos nós. Vivemos  momentos  inesquecíveis, de uma viagem encantadora. Regressamos em paz.

Na chegada, um grande contraste, uma notícia triste que se sobrepôs a toda euforia da experiência maravilhosa que tínhamos vivido: meu irmão estava gravemente doente. Tudo se passara tão rápido que mal dava para acreditar. Senti-me arrancada pela raiz. Não ousei descansar da viagem,pois, não havia tempo para isso, nem clima. Fui ao encontro do meu irmão,que se encontrava hospitalizado.
Atravessei os corredores do Hospital muito tensa. Sentia-me mal em pensar que enquanto eu me divertia ele lutava pela vida. Mas, eu não sabia, e  não poderia imaginar que algo tão grave estivesse acontecendo com ele.

Quando assomei à porta da enfermaria ele estava bem à frente, já desfigurado por causa da doença. Estava sentado numa cadeira, imóvel, parecia paralisado, com um semblante triste, carregado de sofrimento, e vestia uma camisa de time de futebol, listrada, de azul e branco, tal como eu sonhara dias atrás. Porém, eu não lembrei-me disso naquela hora.

Na noite seguinte dormi muito mal. Eu só pensava nele. Não sei se por causa do sofrimento ou da tensão, tive um outro sonho, que tanto quanto o primeiro, me deixaram pensativa.

De novo eu via meu filho, no que parecia ser um quarto ou sala não muito grande, com as paredes pintadas de branco, e sem teto. Não havia janelas nem portas naquele lugar, e as paredes eram muito altas. E ele circulava naquele quadrado, e batia com os punhos e as mãos nas paredes, na tentativa de sair dali, quando depois de um tempo que me pareceu enorme, dois braços se estenderam por cima da parede, e o puxaram para fora, libertando-o daquela prisão. Suspirei aliviada. Eu era uma expectadora,mas, é estranho, eu não sabia de onde eu olhava tudo aquilo.

A situação do meu irmão se agravou muito, e foi necessário submetê-lo a uma delicada cirurgia. Após, ele entrou em coma, e ficou entubado por três dias, depois foi a óbito.

Enquanto ele estava em coma eu o visitei. Fiquei ali parada diante dele, sem saber que dizer, ou que fazer. Não dava para acreditar que um homem tão jovem, tão forte, estivesse naquela condição tão deprimente. Ele estava ali, e não estava. Afaguei os seus cabelos enquanto fazia uma prece, e apesar de tudo, de todos aqueles tubos, aparelhos, me parecia sereno, tão diferente daquele semblante cadavérico e agoniado que eu vira dois dias atrás.

Ele estava ali, mas não estava. Estava preso dentro de si mesmo. Não partira ainda, mas também não se comunicava com o mundo exterior, e me veio à lembrança aquele recinto de paredes brancas, sem teto, que eu havia visto no meu sonho. Sabia que ele estava travando uma luta interior, tentando se libertar. Três dias depois, partiu. Penso que aqueles braços fortes, que vi no meu sonho, o resgataram de dentro daquela prisão, e como cristã, sei que Deus o fez.

Isto é apenas uma reflexão, sobre os meus sonhos, que foram tão reais. O que aconteceu de fato? Teriam sido um aviso, uma premonição? Ou, tudo não passou de grande coincidência? Será que a fronteira entre essa vida física e a espiritual é tão próxima assim? Será que a fé e a sensibilidade para as coisas espirituais nos preparam para momentos impactantes, de perda? Não sei. Só posso dizer que durante todo esse tempo estive no controle de minhas emoções, e de que não sou dada a especulações sobre assuntos que desconheço.

Porém, creio, que:

Há mais mistérios entre o céu e a terra do que possa imaginar a nossa vã filosofia” (Shakespeare).

sábado, 18 de fevereiro de 2017

AUTORETRATO





Caruaruense em devaneios
Sou um mar de sonhos
A emoção que me move
Tem a força de um furacão
Se houver um desafio para enfrentar
Serei valente
E lutarei pelo que sinto
No meu mundo
Procuro a luz que há em tudo
E em todos
Sendo o que sou, sempre com fé e determinação
Isto que está em meu interior
É mágico, porque tudo pode acontecer
Segundo o meu coração, nada pode me deter.

(Eva Gonçalves)



domingo, 12 de fevereiro de 2017

VÍTIMAS DA SECA


Hoje acordei ouvindo uma sinfonia: uma chuva fina que se prolongou por quase toda a noite. O dia amanheceu branco, nublado, mas, para nós nordestinos, não poderia ser mais lindo. Penso que cada um de nós elevou uma prece aos céus por esta chuva tão ardentemente esperada. E desejamos tanto que ela permaneça conosco.  

Nós, que fazemos parte do Polígono das secas, que há cinco anos  estamos enfrentando uma estiagem severa, que estamos vendo despencar a nossa economia, ressecar os nossos cactos, rachar o nosso chão, morrer os nossos animais, e ver flagelados os nossos semelhantes, por causa da seca e do calor infernal, sabemos o quanto vale uma gota d’água. 

Algumas cidades do meu Pernambuco já decretaram calamidade pública. Os principais setores da Economia já estão duramente atingidos, e as pessoas já sofrem a meses a falta de água nas torneiras, tornando-se dependentes dos carros pipas e de alguns poços que felizmente ajudam no abastecimento, mesmo que de forma precária.

Estamos à Mercê de Deus, pois, sem água não se vive, e a pouca e cara disponível, não sabemos da procedência nem da qualidade. 

As regiões mais favorecidas, onde os reservatórios ainda se conservam, também já estão com as capacidades bem prejudicadas, tendo em vista estarem fornecendo para um grande número de municípios. 

A previsão, dada pela Companhia de água do Estado, não é das melhores. Os açudes e barragens que estão sustentando a região, não vão suportar por muitos meses, devido à grande demanda, quiçá, três meses. E depois? Essa é uma pergunta que não quer calar. Esse é o drama do nosso Nordeste. 

Assoma-se a isso a crise política, econômica  e social do país. Talvez até por conta da pobreza, a violência impera. Não temos segurança, vivemos com medo, sem sequer poder usufruir dos nossos bens de consumo.

A saúde pública é precaríssima. Só sabe o que é o serviço de saúde pública, quem precisa dele. Tive a oportunidade de acompanhar, recentemente, duas pessoas da família que precisaram desses serviços, e como foi dolorosa a experiência. Quanto descaso! Quantos agentes de saúde sem preparação! Fiquei indignada. Estou indignada, pois, quanto de impostos pagamos para merecer tão pouca atenção. 

É doloroso e revoltante ver as pessoas doentes, sofridas, deitadas nos corredores dos Hospitais, aguardando atendimento. Não culpo os profissionais médicos, não são eles os responsáveis pela falta de recursos. Graças a tantos deles o povo ainda é salvo de tantas mazelas. Mas, e o Governo? Onde estão nossos representantes?  

Seca, crise, pobreza, descaso, é essa a nossa realidade hoje. A realidade do Nordeste do Brasil. Sim, porque o Nordeste também é Brasil.

A seca do Nordeste é um fenômeno natural antiquíssimo, sabemos disso. Porém, tem se agravado ainda mais com as mudanças climáticas, fruto  dos desmandos do homem com a natureza. E se não houver ações políticas sérias de sustentabilidade, para amenizar esta situação, nós estaremos fritos em poucos anos. É sério. Os cientistas preveem uma desertificação no Nordeste, em poucos anos, além de outras tantas previsões assustadoras que atingirão o mundo todo.
Ah, quero ir para Pasárgada! Não sou amiga do rei, como o poeta, mas, penso que é o único lugar do mundo imune a tantas injustiças e sofrimentos. E que Deus nos ajude!
Por Socorro Melo

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

CHECK UP





Arranquei a primeira folha do calendário de 2017, janeiro, me dando conta de que os dias passaram rápido. Lembrei-me de que, já é quase tempo de marcar novo check up. Coisa mais chata essa de ficar checando a saúde! Se não fosse tão importante, eu abriria mão disso (risos).

Passamos horas intermináveis em salas de espera, sem falar do estresse para conseguir agendar previamente o atendimento.

E aí vem a consulta, tão esperada, caso não haja algum imprevisto, e o consultório não  nos ligue desmarcando tudo e remarcando para data posterior, o que não é raro de acontecer.

Saímos da consulta com uma papelada admirável de solicitações de exames,  significando que vão nos demandar muitos minutos do nosso precioso tempo, e muita paciência também.

Ah, os exames! São um capítulo à parte.

Primeiro já nos metem medo pela quantidade solicitada. Temos a ligeira impressão de que vão nos revirar pelo avesso. Segundo, que  tipos? Os tipos podem ser os mais inusitados e surpreendentes.

Enquanto vamos repassando as guias, e dando de cara com aqueles mais simples, os velhos conhecidos, os biomédicos, está tudo bem.

MAS, e esse MAS,  bem maiúsculo mesmo, vez em quando aparecem os ditos especiais, aí a coisa muda de figura. Primeiro, porque podem sugerir que algo não tão bom possa estar a acontecer conosco, segundo, porque há alguns que parecem verdadeiras sessões de tortura. 

Já tive o prazer de realizar alguns desses tops:

O enema opaco, que  examina o intestino. Procedimento: através de uma sonda é inflado, com pressão, até nos sentirmos como um balão de gás,  prestes a levantar vôo, ou explodir. Imaginem o efeito do super excesso de gases…

A PH metria examina a acidez que sobe do estômago para o esôfago, que é medida através de uma sonda fininha, flexível, introduzida pelo nariz  até o estômago, por 24 horas, causando um desconforto tremendo. A sensação é a de um cabo de aço enfiado no nariz.

E a colangioressonância é uma aventura. A máquina de ressonância magnética mais parece um forno ou um caixão, sei lá, já mete medo só de olhar. Ficamos  imóveis, com pernas amarradas, braços para trás, por quase uma hora, com o rosto quase colado ao teto da máquina. A sensação  é de estar sendo enterrado vivo. Agora sei porque tanta gente prefere fazer com sedação.

E então, esses foram os mais emocionantes que fiz, mas, sei que existem outros mais pitorescos ainda. Bem, pela saúde, tudo. Se for preciso faço, e repito, qualquer deles, mas, que são cabulosos, isso são.

Só refletindo, com meus botões. O objetivo é apenas lembrar que a saúde é o bem maior, e que tudo é pequeno e insignificante diante dela. Que devemos estar preparados para   encarar, apesar do medo e do desconforto, tudo que for preciso para preservá-la, porque “saúde é o que interessa, o resto, não tem pressa.

Saúde e paz para todos!


Por Socorro Melo

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

TERNURA


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Ele está beirando os 80. Desde sempre gostou de crianças. Tem para com elas grande carinho. Gosta de brincar, de pegar no colo, de abraçar, de mimar com doces. Assim foi com os filhos, com os netos, e com todas as crianças que cruzaram (ou cruzem) o seu caminho.

Depois da aposentadoria adquiriu o hábito de  passar grande parte do tempo sentado num banquinho à frente de casa, ou nas imediações. Dali fica vendo o movimento, cumprimentando as pessoas, proseando com algumas, resmungando contra outras, quando a prosa não lhe agrada. Todas as pessoas que passam por aquele quarteirão, o conhecem, o cumprimentam, até as crianças, aliás, principalmente elas, que são as mais bem vindas e melhor acolhidas. 

Elas o chamam pelo nome. Sempre param para receber um afago, um saco de pipocas, balas…

Uma menininha em especial, que por ali passa frequentemente acompanhada da mãe, o chama de vovô. Certa vez, num fim de tarde de verão, quando voltava da Padaria com a mãe, vendo-o sentado ali, sozinho, no seu banquinho, correu para lhe dar o abraço costumeiro.

Deixou-se ficar por uns instantes, enquanto ele lhe afagava os cabelos, então, num dado momento, voltou-se para a mãe e disse:

- Mamãe, vamos levar o vovô para a nossa casa, pois, ele mora sozinho na rua, e isso não é bom.

Não sei o que lhe disse a mãe, de que forma comunicou que ele não era um maior abandonado, de que não precisava de adoção, só sei que me encantou a generosidade sincera e a forma humilde e simples de  resolver as injustiças, demonstrando a grandiosidade do seu coraçãozinho.

Solidarizou-se com o que ela pensou ser uma necessidade do outro, quis proteger quem lhe parecia abandonado, quis oferecer sua própria casa, o seu conforto, a sua companhia. Quis retribuir a confiança, o carinho e a ternura que lhe foram por ele ofertados.
Que Deus conserve nessa criança essas sementes do mais puro amor.

Não foi à toa que o Mestre Jesus enfatizou que, “quem não for como as crianças não  herdará o reino dos céus”.

Uma grande lição de amor, pura e desinteressada.

E ele, por acaso, é meu pai.


Por Socorro Melo






sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

LUTA INTERIOR






E quando menos se espera uma palavra ou uma expressão discorde, coloca à prova todo um processo de busca pela paz e serenidade. É difícil conviver. É difícil aceitar o que é diferente. É muito mais difícil respeitar a liberdade de pensamento do outro sem ofensas.

Travei uma grande luta interior para entender isto. Percebi, após duras penas, que é mais sábio calar, deixar de expressar meus sentimentos ou opiniões, com quem não sabe ouvir e compreender. 

Perdi e ganhei com isso. Perdi a esperança de ter alguém com quem pudesse conversar, falar de sonhos, de ideias, e da vida, alguém onde eu pudesse me derramar, me aconchegar, me dividir... Ganhei, no entanto, quando entendi a limitação do outro, sua incapacidade de dar aquilo que não tem: equilíbrio, maturidade, serenidade, doçura, compreensão...

O silêncio foi a melhor resposta que encontrei. Já optei por este caminho uma vez, e me foi favorável, vou me utilizar sempre dele, quando preciso for. Há situações em que é melhor nos amordaçar.

Fico pensando no quanto perdemos, em toda riqueza de vida, de interação, de cumplicidade, de companheirismo, com as nossas atitudes impensadas, nosso jeito rude de falar, nossa falta de sensibilidade no trato com as pessoas. O quanto nos afastamos, de quem amamos, muitas vezes, por causa de nossos caprichos.

Fiz isso tantas vezes. Quis impor minhas verdades, meu jeito de ser, de pensar, de ver o mundo. Com certeza machuquei, humilhei, porque é impossível que um comportamento egoísta não deixe marcas, até mesmo feridas. E me feri também.

Até que um belo dia despertei, e vi o quanto estava utilizando errado os talentos que Deus me deu. E dei início a um processo de volta, de recuperação de tudo quanto me equivoquei. Nada fácil. A pior fase desse processo é manter o equilíbrio das emoções, é entender que os outros não despertaram ainda e que como eu são dominados pelo ego.

E acabei, de certa forma, tendo que mudar algumas atitudes, alguns pensamentos, a fazer considerações, a olhar certas coisas com um jeito novo, a renunciar a certos pontos para alcançar serenidade e paz.

Consegui lograr muito com minha nova forma de pensar e de agir. Todavia, fica sempre um vazio, um desejo, de poder compartilhar com outros o que carrego dentro de mim, e sei que não posso, pois, corro o risco de ser mal interpretada, retrógrada, incompreendida. É melhor calar. Optar pelo silêncio, e deixar que cada um aprenda com seus próprios erros, que não somos ilhas, que precisamos desaguar nos outros, que as diferentes opiniões podem ser motivos de aprendizado.

Á medida que vivo, aprendo. Já aprendi o suficiente para não querer mais impor minhas ideias, nem querer mudar ninguém. Já foi suficiente as bofetadas que a vida me deu, a cada vez que quis ensinar um caminho melhor para os outros e acabei rotulada de chata e de intrusa. 

Cansei das críticas. Agora não. Não mais. Não vou me deixar afetar por egos inflados. Vou ficar apenas olhando da minha janela. Eu não tenho mais tempo a perder. Eu preciso crescer. Preciso preparar minha bagagem com coisas novas. E me esvaziar de tudo que seja contrário à minha busca pela paz.

Por Socorro Melo

sábado, 21 de janeiro de 2017

DOIS CORAÇÕES

Da Net

´"Eu guardo em mim
dois corações
um que é do mar
um das paixões
um canto doce
um cheiro de tem...poral
eu guardo em mim
um deus, um louco, um santo
um bem e um mal
eu guardo em mim
tantas canções
de tanto mar
tantas manhãs
encanto doce
o cheiro de um vendaval
guardo em mim
o deus, o louco, o santo
o bem, o mal…” Danilo Caymi



Eu não conhecia essa canção do Danilo Caymi, até poucos dias. E quando a ouvi me pus a refletir. De fato, todos  guardamos dois corações,  e todos somos deuses, loucos ou santos em determinados momentos de nossas vidas.

Nós somos uma dualidade. Nós temos além desse corpo físico um ser interior que nos define. Um ser que pensa inteligentemente, que tem suas opções preferenciais, que tem vontades, desejos, que sabe argumentar, que toma decisões, que faz escolhas, que tem atitudes, que participa, que se retrai, um ser feito de razão e de emoção. Um ser livre.

E com essa liberdade que nos é dada, vamos construindo nossa história, edificando nossa vida, abrindo e fechando caminhos. E é grande a nossa responsabilidade na escolha de nossas preferências, pois, elas podem nos render tanto uma vida de sucesso quanto de amarguras e decepções.

Viver é um engenho, é uma arte. Precisamos nos munir de todo talento, de toda capacidade, de muita criatividade e bom humor para  levar adiante essa construção de forma desejável.

Não se pode perder um minuto na vida. Tudo conta a nosso favor ou contra nós. O que fazemos hoje tem reflexo na nossa vida amanhã. Podemos acertar ou errar, seja o que for, vamos colher os frutos do que plantamos.

Mas, podemos folgar com a certeza de que errando, podemos corrigir e dar um novo rumo à construção, basta que nos conscientizemos daquilo que  é realmente  o objetivo a ser atingido.

E quantas vezes damos murros em ponta de facas. E agimos de forma egoísta, como loucos, desrespeitando o espaço e a dignidade dos outros, querendo nos impor ou impondo nossas ideias e interesses.

E somos obrigados a juntar os cacos do nosso coração, que por vezes, ainda altivo, não aprende a lição. E são tantos os disparates, conforme o tamanho da insensatez.

Alimentamos o santo quando adotamos uma forma altruísta de viver. Quando enxergamos que além de nós existem mais. Quando somos capazes de nos ignorar, para  atender a necessidade de outro que é mais urgente, sem medir esforços e sem impor condições, quando deixamos aflorar sentimentos e virtudes nobres, como a generosidade, a compaixão, o acolhimento, o desapego, que aos olhos de muitos pode parecer loucura ou utopia, mas, que nos garante uma felicidade ímpar que nenhum bem material pode compensar.

Todavia, quando nos sentimos deuses, e sabemos que guardamos em nós essa possibilidade, atingimos o cúmulo da idiotice. O orgulho e a soberba nos levam a entender que somos superiores aos demais, mais dotados, mais expertos, mais agraciados, mais merecedores e por fim, acreditamos nisso.

E nos comportamos como rolos compressores, cegos e violentos, passando por cima de qualquer que venha ameaçar a nossa posição.

Todas essas possibilidades estão guardadas nos dois corações. Um guarda a doçura, o outro o fel. Um guarda o amor desinteressado, o outro as paixões desordenadas. Um guarda a felicidade o outro a desventura.

E tudo depende de nossas escolhas. A partir da mais ínfima. A vida é o que nós decidimos fazer dela. Para isso fomos presenteados com a liberdade. Porém, temos que compreender que vamos responder, cedo ou tarde,  pelo uso dessa liberdade.

O coração que é alimentado é aquele que vai se sobressair.  Priorizemos o coração que é leve, que não tem amarras, que guarda a simplicidade, que guarda o mar, o encanto doce, àquele que tem olhos e que enxerga mais longe, além do horizonte.

Por Socorro Melo