Pegadas de Jesus

Pegadas de Jesus

terça-feira, 27 de março de 2012

LAVADEIRAS


Imagem do Google

O dia mal clareava e lá iam elas, rumo ao barreiro do sítio Batinga. Juntavam-se, ao cantar do galo, debaixo do pé de jasmim, no fim da rua. Naquela hora, também os agricultores já estavam de pé, e selavam seus animais, arrumavam suas carroças, e se dirigiam para a lida.

Caminhavam a passos largos pela estrada de terra, onde aqui e ali se deparavam com touceiras de flores silvestres. Lá adiante, de um lado e de outro da estrada, se viam grandes pés de aveloz, e num determinado trecho, as árvores se juntavam nas copas e formavam um imenso túnel, sombreado.

Em cima de rodilhas, equilibravam nas cabeças suas enormes trouxas de roupa suja, e nas mãos, levavam bacias de alumínio, bolsas com sabão e água sanitária, a merenda e a quartinha de água potável.

Por vezes caminhavam caladas, e só se ouvia o som de seus passos, pisando nas pedrinhas da estrada, em outros momentos, falavam seriamente, e confidenciavam suas mazelas, e seus temores. Mas, normalmente, eram alegres, e corriam as estradas cantando refrões de algumas músicas populares.

No meio do caminho havia um riacho, de águas salgadas, e elas, retiravam as sandálias dos  pés, e o atravessavam pelo leito, já que não confiavam nas pedrinhas escorregadias que serviam de passarela para os que não queriam se molhar.

Depois do riacho, o caminho se estreitava, e elas prosseguiam agora em fila indiana. Endureciam a cerviz para se firmar, e manter a salvo a carga que levavam na cabeça. Riam de suas dificuldades, quando se sentiam enlaçadas por arbustos espinhosos, ou quando os insetos as rodeavam, já que as duas mãos estavam ocupadas. E quando finalmente chegavam ao lugar de destino, depois de caminharem de trinta a quarenta minutos pelo mato, só avistando, vez por outra, pequenos casebres a certa distância, paravam para abrir a pequena porteira, e continuavam ainda em fila indiana, em direção ao barreiro.

O barreiro era pequeno, e estava coberto por uma vegetação que elas chamavam de pasta. Arriavam suas cargas, e cada uma se dirigia a uma pedra, em volta do barreiro, munidas da roupa suja, e da bacia de alumínio, depois de pendurarem nos galhos das árvores, a singela merenda, e encostarem a quartinha ao pé das árvores.

Afastavam a pasta, e enchiam, com cuias, as suas bacias, e debruçavam-se sobre a roupa, molhando, ensaboando, esfregando, e batendo na pedra, até obterem a limpeza satisfatória, e depois as estendiam por cima de vegetação rasteira, até a hora do enxágüe.

Enquanto lavavam a roupa, distraíam-se entoando hinos religiosos...

“O meu coração, é só de Jesus”.

“A minha alegria, é a santa cruz...”.


“Vitória, tu reinarás”.

“Oh cruz, tu nos salvarás...”.

Quando terminavam a primeira parte, e se via ao redor do barreiro um imenso colorido, de roupas estendidas por sobre a relva, elas encaminhavam-se para debaixo das árvores frondosas, lá onde haviam deixado a merenda, e se deitavam  para descansar. Neste intervalo, cochilavam, conversavam, trocavam idéias, contavam seus sonhos, falavam dos maridos, da família, mas, principalmente da dificuldade financeira, pois, vivia-se um tempo de recessão, de carestia, e de uma seca cruel.

Não conheciam a situação econômica do país, e nem sabiam o que era isso. Os meios de comunicação eram escassos, e na vila onde moravam, só existia  um rádio, de propriedade de seu João, e apenas seus maridos, tomavam pé da situação: era assunto de homem. Entanto, sentiam na pele os efeitos da inflação. Na vila, a ocupação principal dos moradores era a agricultura, a produção da farinha de mandioca, e a fabricação de panelas de barro, que eram vendidas na feira da cidade.

Tinham necessidades, mas, ninguém passava fome, pois, quem possuía mais, dividia com os que não tinham nada, e assim, se colocava tudo em comum.

À hora da merenda, abriam suas mochilas bem alvas, bordadas à mão, que envolviam em sacos plásticos, e retiravam de dentro, pedaços de pão dormido, bolacha seca, rapadura, mata fome, bananas, laranjas, e carne seca com farinha. A água que traziam na quartinha era o acompanhamento do saboroso alimento que tomavam, depois de agradecerem a Deus por ele.

O sol já se fazia alto, quando elas voltavam às suas atividades. Retiravam todo o sabão das roupas, torciam, e novamente estendiam nas árvores, e aguardavam que secassem, para finalmente voltarem para casa. E quando voltavam, cansadas e caladas, com  o sol queimando-lhes a pele, já era bem tarde. E faziam seus planos, para na próxima semana se encontrarem, e voltarem. E longe de ser um sacrifício, aqueles eram momentos de interação e de fraternidade.

E dona Maria sorriu, voltando de suas lembranças, embalando-se na cadeira de palhinha, e observando a filha retirar da máquina de lavar, a roupa quase seca que colocara há tão pouco tempo, e que não lhe impedira de realizar outras atividades. Que diferença!- Pensou. A modernidade, de fato, simplificou muita coisa.

Por Socorro Melo
Projeto Cata-Vento

14 comentários:

Néia Lambert disse...

Que lindo!
Apesar de toda facilidade trazida pela modernidade, somente as lavadeiras de outrora sabiam que essa tarefa também era uma arte.
Encantei-me Socorro!

Beijos

Jaque disse...

Querida, tenho certeza que se minha mãe lesse isso voltaria ao passado! Ela lavou muita roupa no rio, quando pequena ainda... E ai dela se não lavasse direitinho. Realmente hoje as coisas são tão mais fáceis que não damos valor! Sempre tento lembrar o que minha mãe passou pra poder valorizar o que tenho hoje.

Gostei demais do texto, a descrição dos detalhes foi feita ricamente!

E obrigada pelos comentários :) Sobre os anônimos eu acho que são pessoas caçando confusão sempre. E as recordações que nos deixam saudosas são tantas né? Seja um filme, uma série, uma época, uma música... Viva as lembranças :)

Um beijo!

Silenciosamente ouvindo... disse...

No tempo em que não era crime
as crianças trabalharem, eu aí com
uns 7 anos, fui uma dessas lavadeiras.Só podia regressar a
casa ao fim do dia com a roupa seca...talvez por isso, hoje tenho
graves problemas ósseos.
Foi comovente para mim ler este post.
Desejo que esteja bem.
Beijinhos
Irene

pensandoemfamilia disse...

Minha avó materna foi lavadeira e este seu conto nos remetem a um tempo em que havia dureza nas tarefas, mas muito cvompartilhar e alegria pelo que se fazia.
bjs

Elisa T. Campos disse...

Socorro
És uma talentosa escritora.
Encantei-me com o que li e voltarei para ler. Você trouxe à tona a minha infância.Eu era pequenina, a minha casa ficava num sítio e bem próximo havia um rio(na época) de águas tão cristalinas que dava para beber e até ver milhares de peixinhos e girinos na beirada.Embora onde morava fosse abastecida por um poço, a minha mãe contava com a ajuda de uma lavadeira. Fazia uma enorme trouxa de roupa suja e entregava a essa senhora que prontamente colocava sobre a cabeça.Com uma das mãos segurando a trouxa e a outra levando enorme pedra de sabão caseiro, lá ia ela à beira do rio.Depois retornava e estendia tudo no varal.
Hoje é humanamente impossível conviver sem a automação, mas naquela época esse ato de lavar era simplesmente fascinante.

Obrigada
Um lindo dia para você
Beijos

♫*Isa Mar disse...

Oi Socorro, legal relembrar, bem que as modernidades facilitam bastante, apesar de as vezes dificultar algumas coisas como a simplicidade que muitos perdem em termos de qualidade de vida.
Beijos e lindo dia!

ONG ALERTA disse...

Hoje mudou muito Mas ai da exist este tipo de tarefa, my here's guerreiras, beijo Lisette.

✿ chica disse...

Que linda história tão bem contada.Tantos trabalhos,não? Ficou linda!!beijos,chica

Marcia disse...

Tudo mudou...mas ,essa beleza da simplicidade,parecia fazer as pessoas mais felizes menos preocupadas!Bjos

ELAINE disse...

Socorro querida! Parabéns! Linda postagem! As lembranças fazem parte de nossas memórias... Mas a tecnologia ajuda um monte, rsrsrs! Abraço carinhoso! 5ªF abençoada
Elaine Averbuch Neves
http://elaine-dedentroprafora.blogspot.com.br/

Everson Russo disse...

Uma bela quinta feira pra ti minha amiga, muita paz, versos e flores...beijos

Lúcia Soares disse...

Socorro, fiquei emocionada, fui lendo num fôlego só! Há pouco tempo assisti a um documentário sobre as lavadeiras. Ainda existem por esse Brasil afora, sabemos disso.
Há até um grupo, não sei se em Minas, que tem um coral, pois as vozes delas são inconfundíveis e as cantigas fazem parte do folclore.
Seu texto é perfeito e emocionante.
Beijo!

Rachel disse...

Oi amiga, passando para deixar um beijinho e dizer que adoro seus textos, viu?!
Bjuss!!!

Manuela Freitas disse...

Vidas simples, vidas duras, mas onde também havia uma singela felicidade compartilhada!
Tens um bom estilo de escrita e é sempre bom ler-te!
Beijinhossss
Manu