Pegadas de Jesus

Pegadas de Jesus

segunda-feira, 3 de julho de 2017

DESABAFO


Não há nada pior do que se sentir impotente diante de uma situação. Nada como olhar de um lado para outro e não saber que rumo tomar. Nada como perceber que não existe chances, alternativas, caminhos. É como se uma grande muralha se erguesse à nossa frente, indicando que ali é o ponto final. E não importa qual seja a situação, se financeira, de saúde, de relacionamento...

Em momentos assim se trava um combate interior. Difícil olhar para trás e perceber que o que se construiu deixou a desejar. Mais difícil ainda é entender que se pode fazer algo de bom, mas, não se sabe como, onde ou quando. E o tempo urge.

A sensação é a de um robô enferrujado. Nenhum movimento. Nenhuma flexibilidade. No fundo há medo. Medo da impotência, e da velocidade do tempo. 

Uma a uma as folhas de papel vão sendo jogadas no cesto de lixo, vazias e amassadas. São projetos abortados. Nenhuma luzinha se acende sobre a cabeça, sinalizando a boa ideia. Parece que não existe nada de novo, nem de promissor. Parece que todas as ideias já se transformaram em atividades ordinárias. E não existem elos que unifiquem toda a confusão gerada na mente, cansada de buscar saídas.

Que grande inquietação! É só um momento, eu sei, vai passar. É o momento da construção da ideia. Sempre há os prós e os contras antes de se formar uma grande ideia. E nada nasce sem dor e sofrimento, nem morre.

Quando cessar o torvelinho das emoções, quando a serenidade chegar, quando um tímido raio adentrar o túnel escuro, tudo se resolverá. A resposta será tão óbvia que será difícil de acreditar. Mas, até lá...

Não existe maior vitória do que aquela de vencer a batalha dentro de nós. Por que tudo precisa ser tão complicado? Talvez porque nossas amarras nos impeçam de ir além.

Pensando positivo é bem provável que o grande segredo seja a perseverança. Quem sabe! É preciso insistir. Não desistir. Quem sabe até fazer algumas loucuras, loucuras sensatas, ora pois!

Até mesmo um desabafo já significa se mover, sair do quadrado. A ordem é pensar, pensar e pensar...

E vamos pensando, num determinado momento vamos nos surpreender e gritar Euuuuureka!

E aí, então foi. Ou então é. Ou será. Será?

Não sei, só sei que não dá para chorar diante da impotência, é preciso vencê-la na queda de braço, afinal,
não há bem que dure ou mal que não se acabe.

(Por Socorro Melo)




quinta-feira, 22 de junho de 2017

A DINÂMICA DA VIDA


Uma noite fria, mais uma. O céu negro e estrelado. Algumas estrelas cintilavam tanto que pareciam querer me dizer algo, alguma coisa. E eu ali, embevecida, a contemplar aquele espetáculo pela enésima vez. Meu corpo entre quatro paredes, e minha visão transbordando a vastidão do infinito. Um silêncio tocante. Parecia que algo saia de mim, que não cabia em mim, que queria alcançar o infinito, o inalcançável. Era tão bom sentir aquilo. Quantas vezes eu me recolhia àquele pequeno espaço para contemplar Deus, nas estrelas, na imensidão do firmamento. De todas as coisas criadas, a visão da abóbada celeste é a que mais me impressiona, e me emociona. É como uma saudade, uma vontade de voltar pra casa.Como se alguém que me ama muito estivesse à minha espera, contando os minutos para minha chegada. É meu encontro com Deus.

Sinto um movimento na minha alma. Vêem-me à lembrança algumas pessoas, que Deus colocou no meu caminho. Penso nelas. No que vive cada uma. No porquê de Deus ter me colocado no caminho delas. Decerto que foi para aprender. Sou grata por isso.

Duas experiências de vida diferentes. Para mim uma missão desafiante. Por um lado o vigor e o desabrochar da vida dos jovens adolescentes, alegres, impulsivos, irrequietos, curiosos, inocentes ainda, eufóricos pelas novas descobertas, pelo anseio de se lançar na vida, no mundo, de se autoafirmarem, de se sentirem aceitos, importantes, sem muito jeito ainda de lidar com essa fase da vida, tendo até momentos de rebeldia, querendo impor suas vontades, achando que já sabem tudo, mas tão frágeis para qualquer situação inusitada.

Por outro lado, o extremo da vida, o outono, o momento da inutilidade, das limitações, das dores e sofrimentos, da solidão e do medo, do vazio ou da sabedoria da vida. Idosos visitados pelas enfermidades, com dificuldade de locomoção, alguns até presos à cadeiras de rodas, ou vítimas de seus próprios corpos mutilados, lesionados, sem capacidade de reação aos estímulos naturais.

O fulgor da juventude contrastando com a chama bruxuleante da velhice. E que lição de vida, meu Deus! O que dizer a cada qual? Falar de amor, de esperança, de caminhos.

Ser jovem com os jovens, tentar falar a mesma linguagem, conhecer os gostos, animar, advertir, tentar mostrar um tantinho da grandeza do amor de Deus. Desenvolver com criatividade jogos interessantes, a partir dos quais se ofereça a temática que deva ser trabalhada, correndo o risco de não alcançar a sintonia deles, dada a diferença de nossas gerações.

Com os idosos, outra pedagogia, outra maneira de chegar junto, de alcançar o coração, a confiança, e de poder transmitir o ânimo e a alegria do evangelho, da boa notícia. Sinto, por vezes, o medo que eles sentem, a nostalgia, as incertezas, a indignação diante da impotência e inutilidade. E como animá-los? Deixo a cargo do Espírito Santo. O que poderia eu dizer? Como alentar? Mas, tudo posso, naquele que me fortalece, bem disse o apóstolo Paulo, e nessa confiança, congratulo-me com eles, e os faço entender que Deus é fiel, e que com coragem devemos cumprir nossa missão no mundo, pois, os desígnios de Deus, às vezes incompreensíveis, são retos, e um dia, na vida eterna que nós cremos, entenderemos a nossa história.

E assim, olhando fixamente as estrelas, enquanto um arrepio na pele me faz estremecer, vou recomendando a Deus os meus amigos, e esboço um sorriso, e sinto uma paz tão grande, que tenho certeza, Ele me sorri do outro lado, e acolhe a minha humilde prece. E eu ali, embevecida, ante aquele céu negro e estrelado, pela enésima vez.

Por Socorro Melo

quarta-feira, 14 de junho de 2017

ENTRE PANELAS E OUTRAS COISAS MAIS




Depois de tanto tempo, precisei assumir em casa, algumas atividades domésticas. Nunca fui muito habilidosa com tais atividades, apesar de gostar da minha casa limpa e cheirosa, mas, quando necessário, arregacei as mangas e me pus a serviço. Dessa vez, porém, era diferente, pois não seria por um curto espaço de tempo, mas, por tempo indeterminado. E cozinhar, era o que eu mais temia. Vi-me angustiada.

Naquela tarde, senti-me desprotegida. O peso da responsabilidade com as atividades do lar, concomitantes com o trabalho fora de casa, crescera assustadoramente, e me tomara de pavor. Pensei que não seria capaz de enfrentar a jornada. Certamente o pouco tempo livre que me restava, seria insuficiente para atender a demanda que me esperava.

Passados os minutos de tensão, deixei as lamúrias de lado, e encarei a situação de frente. Pus as mãos na massa, não sem sentir as dificuldades próprias. Entanto, o fato de desempenhar as atividades, não significava fazê-las com gosto.

Sempre fui adepta da teoria de trabalhar com amor, pois, além de tornar mais fácil o ofício, nos rende paz interior, todavia, os dias se passavam e eu não conseguia executar com amor as minhas atividades domésticas, principalmente a preparação dos alimentos, e isso me deixava preocupada.

Fazia todos os dias, de forma mecânica, por obrigação, o que tinha que ser feito. Por vezes resmungava, e me queixava. De outras oportunidades, me entristecia, pois, queria fazê-lo com ternura, com ânimo, mas, não conseguia.

Juntou-se a essa situação um cansaço redobrado, pois, passei a cumprir um terceiro expediente. Sentia raiva de não ter um tempo livre para cuidar de mim, para ler um livro, ver um filme, ou simplesmente relaxar.

Quando parava para pensar na questão, batia-me um desânimo, pois, não via luz no fim do túnel. As atividades que eu desempenhava, eram essenciais, e eu não poderia deixar de realizá-las, um dia, sequer. Também não cogitava em transferi-las para outra pessoa, uma auxiliar, por exemplo. E pensava, constantemente, no que mais eu poderia empreender, para livrar-me delas, porém, não vislumbrava nada.

Certa feita, num dos poucos momentos prazerosos a que dediquei meu escasso tempo, ouvi uma frase que me impulsionou, e referia-se a fazermos um propósito, e tentarmos cumpri-lo, por amor a Deus. Achei oportuno, e já encaixei a minha situação neste contexto: iria fazer o meu propósito, pois, somente Deus, ou tão somente por amor a Ele, eu talvez conseguisse o meu intento. E assim o fiz.

Pedi ao Senhor, da forma mais despretensiosa que foi possível, que me ajudasse a cumprir minha tripla jornada de trabalho com prazer, por amor a Ele, e a minha querida família. Que eu me despojasse do meu egoísmo, e da minha má vontade, e tornasse as coisas mais fáceis para mim mesma, pois, talvez eu estivesse fazendo grande tempestade num copo d´água.

Por um instante, num flash imaginativo, tive uma visão do futuro: não tinha mais por perto a minha família, e eu daria tudo, naquele instante, para me debruçar sobre a pia e o fogão, para preparar-lhe as refeições, mas, eles não estavam lá, eu estava só. Um grande medo me invadiu a alma, e tomei consciência de que, deveria abrandar meus sentimentos de rejeição pelo trabalho do lar, e fazê-lo com todo o meu carinho, pois, era por Deus e pelos meus, que eu estava fazendo.

Pensei em quantas mães estavam agora chorando, ao redor de panelas vazias, pedindo a Deus que lhes desse pão, para servir aos seus filhos, e eu ali, reclamando por ter que fazê-lo. Isso me deu um arrependimento incomensurável, e reforçou a minha vontade de mudar de paradigma.

Toda mudança começa na vontade, e no pensamento, depois, vem à ação concreta, conseqüência da mudança interior. Percebi, após alguns dias, que as tarefas já não me incomodavam tanto, e que eu já as realizava sem tanta aversão, e isso me deixou contente, pois, como teria que fazê-las, melhor que as fizesse com serenidade.

Isto não significou a ausência do cansaço, pois, seria impossível, nem que eu, de repente, descobrisse talentos para a culinária e habilidades domésticas, visto que não tenho mesmo vocação, porém, trouxe-me tranqüilidade, e um jeito novo de me portar, sem me consumir de angústia e ansiedade. Tento a cada dia preparar as refeições e organizar outras tantas tarefas, com zelo e pensando no bem estar da minha família, e num processo contínuo tenho buscado cumprir o meu propósito. E assim é.

Por Socorro Melo


quarta-feira, 7 de junho de 2017

A PLENITUDE DA VIDA





A RESSURREIÇÃO: PLENITUDE DE VIDA



Porque te afastas para longe na busca dos bens da tua alma e do teu corpo? Ama o único Bem, no qual estão todos os bens, e tanto te bastará. [...] Lá no alto, está tudo aquilo que se pode amar e desejar.

É a beleza que amas? «Os justos resplandecerão como o sol» ( Mt 13,43). É a agilidade e a força de um corpo livre e desembaraçado de todos os obstáculos? «Eles serão como os anjos de Deus» [...] É uma vida longa e sã? Lá em cima espera-te a saúde eterna, pois «os justos viverão eternamente» (Sab 5, 16) [...] Desejas ser saciado? Sê-lo-ás quando Deus te mostrar o seu rosto na sua glória (Sl 16,15). Estar embriagado? «Eles ficarão embriagados da abundância da casa de Deus» (Sl 35,9). É um canto melodioso que te agrada? Lá no alto, os coros angélicos cantam sem fim os louvores do Senhor. Procuras as delícias mais puras? Deus dar-te-á de beber na torrente das suas delícias (Sl 35,9). Amas a sabedoria? A sabedoria de Deus manifestar-se-á em pessoa. A amizade? Eles amarão a Deus mais do que a si próprios, amar-se-ão uns aos outros tanto quanto a si próprios, e Deus amá-los-á mais do que eles alguma vez podem amar. [...] Amas a concórdia? Eles terão todos uma só vontade, pois não terão outra vontade senão a de Deus. [...] As honras e as riquezas? Deus dará muitos bens aos seus servos bons e fiéis (Mt 25,21); mais ainda, «Eles serão chamados filhos de Deus» (Mt 5,9) e sê-lo-ão na realidade, pois onde está o Filho, aí também estarão «os herdeiros de Deus e os co-herdeiros de Cristo» (Rom 8,17).

Santo Anselmo (1033-1109), monge, bispo, doutor da Igreja 
«Proslogion», 25-26

sábado, 20 de maio de 2017

MONÓLOGO

Imagem da Net


Um dia nos encontramos, em um imenso jardim. E era primavera. Você por mim se encantou, e juntos, traçamos lindos planos de voo. E voamos, em direção ao infinito.

Empreendemos a caminhada. Partimos com alegria, com entusiasmo, definimos a meta, e nos comprometemos a superar o calor, o frio, a fome, os insetos, e tudo mais que encontrássemos pelo caminho...

Depois me vi sozinha. Você se deslumbrou no meio da estrada, e enveredou por atalhos, talvez impressionado com novas cores, ou quem sabe, com novas flores, e me deixou prosseguir sozinha, com o coração dilacerado pelo medo, pela tristeza, mas especialmente, pelo desencanto e pela solidão.

Vi minhas ilusões esmaecerem. Esvaíram-se como nuvens, que se dissipam no céu. Perdi as cores. Perdi as asas. Chorei todas as lágrimas, e delas me alimentei por dias sem fim...

A estrada tornou-se íngreme. Vieram subidas, descidas, precipitações. Por vezes o frio da saudade e da desilusão me prostrou, mas, firmei os pés na caminhada, confiante de que o calor da minha fé iria me conduzir ao meu destino. Destino? Que destino? Eu só via a estrada sem fim, desenrolar-se diante dos meus olhos, que tristes, a seguiam sem vacilar.

E onde estava você, nos meus dias de inverno? Por certo se inebriando, no doce néctar das flores. Você vivia a primavera. Você sempre optou pela primavera, como os beija-flores.

E eu, senti o frio do desprezo gelar meus ossos. Enxuguei do meu rosto, tantas vezes, o suor, as lágrimas, que misturadas com a chuva fina do meu inverno, disfarçavam a melancolia que eu carregava na alma.

Caminhei lentamente, com os olhos perdidos no horizonte. Segurei-me em braços e abraços... E numa bela manhã, a estrada, serpenteada de flores silvestres, foi tornando-se mais bela, pois rebentavam a cada novo olhar, brotos de esperança.

O peso dos meus sonhos desfeitos, e dos castelos que desmoronaram no ar, tornou-se mais leve. Eu via luz no fim da estrada. E caminhar passou a ser um deleite, porque eu apreciava minha própria companhia. E finalmente estava liberta. As asas se renovaram. E via com alegria o sol se derramar sobre as encostas, e sobre as escarpas, e um céu azul sem nuvens, lavado, se estender pela vasta imensidão.

E a vida renascia em cada flor, em cada novo cheiro, até mesmo nos arbustos e cactos, e na correnteza que me ensinava que tudo passa e que tudo deve seguir seu caminho, que tudo se transforma, que nada permanece igual, assim como os novos sentimentos de libertação, e de vitória, que se aninharam em meu renovado coração.

E quando eu vivia a primavera, quando todos os botões e flores me sorriam, e prometiam-me a docilidades dos frutos, eis que você volta, e por um atalho da vida, invade minha estação, cheio de promessas.

E assim eu o vi, com um novo olhar. E entendi que o atalho não lhe rendeu tanto mel, e que em suas asas, havia apenas as marcas da poeira da estrada.

E agora a estrada, que se fazia nova para mim, também se abria em possibilidades inúmeras à sua frente.

Já é outono, e precisamos colher os frutos. Vamos continuar nossa caminhada. Nosso ritmo é sempre diferente. Você sempre se adianta, ou se atrasa... É preciso acertar o passo, pois os frutos estão maduros, e não podemos perdê-los.

Não podemos retardar a caminhada. Não vamos reduzir os passos. Os frutos estão maduros. Logo se fará noite, e à noite, já terei saído do caminho, já terei atingido a minha meta. Mas, quero chegar à minha noite, com um cesto repleto de frutos: maduros e doces.

Da minha bagagem, de tristezas e decepções, quando o coração árido e maltratado pulsava soluçando, levo apenas a lembrança, pois, hoje, carrego comigo a certeza de que nem os ventos, nem a tempestade, são capazes de arrancar o meu amor pela vida, e o meu entusiasmo de buscar a cada novo dia, em cada curva da estrada, o refrigério que só encontro no regaço de Deus.

  (Por Socorro Melo)


terça-feira, 9 de maio de 2017

"O PAI E EU SOMOS UM"





«O Pai e Eu somos um»


No dia da festa de Santo Agostinho, acabava eu de comungar, quando compreendi, quase podia dizer que vi – não sei explicar como, sei apenas que isto se passou no meu intelecto e que foi muito rápido –, de que forma as três Pessoas da Santíssima Trindade, que tenho gravadas na minha alma, são uma mesma coisa. Isto foi-me mostrado por meio de uma representação verdadeiramente extraordinária e numa luz extremamente viva. O efeito que a minha alma experimentou foi muito diferente daquele que a visão da fé produz em nós. A partir desse momento, não consigo pensar numa das três Pessoas divinas, que não veja também que são três.

Perguntava a mim mesma como era possível que, constituindo a Trindade uma unidade tão perfeita, só o Filho Se tivesse feito homem. O Senhor fez-me compreender de que forma as três Pessoas, sendo uma mesma coisa, são contudo distintas. Em presença de tais maravilhas, a alma experimenta um novo desejo de escapar ao obstáculo do corpo, que a impede de delas usufruir. Embora pareçam inacessíveis à nossa baixeza, e a sua visão termine imediatamente, a alma retira delas mais proveito, sem comparação, que de longos anos de meditação, e sem saber como.


Santa Teresa de Ávila (1515-1582), carmelita descalça, doutora da Igreja 
As Relações, 47

sexta-feira, 28 de abril de 2017

CONTO: O ÚLTIMO DIA - PARTE 6



Andou em círculos por um bom tempo, sem ter noção de onde ficava a rodovia, mas, por fim, encontrou. Estava desnorteado, não sabia que lugar era aquele, e se sentia humilhado por estar seminu. Viu um barzinho à beira da estrada, com um orelhão defronte, e para lá se dirigiu. Contou toda história, foi acolhido, conseguiram-lhe uma peça de roupa, e depois de refeito, dirigiu-se ao orelhão e ligou para Luísa.
Quando ouviu a voz da mulher, as lágrimas brotaram de seus olhos, e os deixaram embaçados. Foi tomado de grande emoção, e nunca a voz de Luísa lhe parecera tão doce e tão maviosa aos seus ouvidos. Fez um esforço para recobrar o controle e disse:
- Luísa, eu estou bem. Vou chegar mais tarde, mas, não se preocupe, estou bem – e depois de instantes, com o coração aos pulos, disse carinhosamente: eu te amo.
A vida lhe dera uma nova chance, sentia que nascera de novo, e só importava ser feliz agora. Viveria cada dia de sua vida como se fosse o último. Era sexta-feira.
No domingo seguinte, Alfredo era só mais um, naquela passarela de peregrinos que conduzia aos pés da mãe Aparecida, para derramar  no seu coração misericordioso toda sua gratidão e louvor.

Imagem da Net
FIM


Esta história foi baseada em uma experiência real, vivida por alguém da minha família.



quinta-feira, 27 de abril de 2017

CONTO: O ÚLTIMO DIA - PARTE 5


Imagem da Net

O medo tornara-se pavor, e a angústia era tanta, que o sufocava ainda mais que o saco que o envolvia. E foi neste momento, que se sentiu arrastado para fora. As dores musculares eram tão fortes, que mal conseguia ficar de pé, em compensação, sentiu o ar fresco entrar em seus pulmões, conferindo-lhe certo conforto. Do que valia isso? Se em poucos instantes iria estar morto mesmo.
O saco foi retirado de sobre seu corpo, com a mesma rispidez com que fora colocado. Ainda com a venda nos olhos, sem saber se era dia ou noite, pensava - então é isso, chegou minha hora.
A venda dos olhos foi arrancada, para completar aquele quadro de horror, e Alfredo se viu diante dos bandidos, que abdicaram de seus capuzes, e máscaras, e o olhavam indiferentemente, como se ele não passasse de um verme nojento e sem importância.
Estavam no meio de um matagal, e já era noite. Não havia nenhum barulho, a não ser o dos grilos. Alfredo tentou ouvir algum som, ou ruído, vindo da rodovia, porém, o silêncio era aterrorizante.
Um deles, o gordo e careca, mandou que ficasse de joelhos, e encostou-lhe o revólver na nuca. Os outros dois, que pareciam até mais debochados, se posicionaram logo atrás, e ficaram em grande expectativa.
Os segundos pareciam horas, e Alfredo já ansiava pelo disparo, pois, não agüentava mais tanta agonia. Com um sotaque carregado e utilizando-se de gírias, iniciou-se uma conversação entre eles:
- Atira logo, Gordo, que demora é essa? Ou tá querendo poupar o mané? Falou aquele que tinha tatuagens por todo corpo, e que era chamado de Tatu.
O terceiro, um afro-descendente, magricela e feio, interveio:
- Aê, Gordo, acaba logo com isso, mermão. 
Alfredo, que já se convencera do seu fim, sentiu um calor subindo pelo corpo, e tomado por uma coragem insana, falou, mais para si do que para eles:
- Por favor, não me matem, eu nunca fiz mal a vocês, tenho família, me deixem viver, em nome de Jesus, e de Nossa Senhora de Aparecida... 
E naquele momento, um vento forte e uivante, se fez ouvir no matagal.
- Cale a boca!- gritou Tatu. Tu vai morrer mané, teus santo não tão nem aí pra tu - e sorriu escandalosamente, sendo seguido pelo magricela, que disse:
- Bora Gordo, tá com medo de que? – e os risos continuaram.
E neste momento, o Gordo retirou a arma da nuca de Alfredo, virou-se para os dois que estavam por trás dele, e disse ferozmente:
- Calem-se! Já estou cheio dessas intromissões. Não se esqueçam de que sou eu quem manda aqui. Não tenho medo de nada não, mas, não gosto de encrenca pro lado de santo nenhum. Vamos embora, deixa o mané aí. Tirem toda roupa dele, deixem-no só de cueca.
Os outros, que não disseram uma palavra sequer, recolheram a roupa de Alfredo, e o empurraram num  barranco, e depois seguiram o Gordo, que se dirigia para o caminhão.
Passados alguns minutos, Alfredo se levantou, e desatou a chorar como criança desmamada. Com o corpo trêmulo e coberto de terra, o rosto machucado, sentou no barranco, tirou a medalhinha de Nossa Senhora de Aparecida, fez uma prece silenciosa de agradecimento, beijou-a, e se pôs de pé.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

CONTO: O ÚLTIMO DIA - PARTE 4



Imagem da Net

Desorientado, ainda, pelo desagradável incidente, falou asperamente, se voltando para o carro à sua frente:
-          Que maluquice é essa? Todavia, mal acabara de proferir as palavras, a cabine do caminhão foi invadida por três homens armados, encapuzados, que o puxaram violentamente para fora.
Alfredo, trêmulo, ainda conseguiu balbuciar algumas palavras:
- O que é isso?  Mas, logo se calou, pois, sentiu que as circunstâncias não lhe eram favoráveis.
Recebeu uma coronhada na cabeça, que o deixou zonzo, e o aviso de que não mais se dirigisse a eles. Vendaram-lhe os olhos, enfiaram um saco por sobre sua cabeça, e o colocaram de volta no caminhão, só que dessa vez, atrás do banco da cabine.
Os homens ocuparam os assentos, tomaram a direção, e o caminhão começou a movimentar-se, deixando para traz o carro branco que os conduzira até ali.
Alfredo, dentro do saco, tremia tal qual bambu açoitado pelo vento. Sentia doer-lhe todos os músculos do corpo, e respirava com grande dificuldade. No entanto, o medo que sentia, neutralizava toda e qualquer dor. Não conseguia raciocinar direito, e custava-lhe crer que tudo aquilo lhe estivesse acontecendo. Quando tentava encontrar uma posição mais confortável, e fazia algum movimento, sentia a mão de um dos bandidos a lhe empurrar a cabeça, para baixo, para que ficasse agachado por completo.
Vez por outra ouvia a voz dos marginais, nitidamente, e ficou petrificado, quando os ouviu dizer que o melhor seria eliminá-lo.
E nessa agonia permaneceu por muito tempo, horas a fio, já não tinha idéia de quantas, pois, estava desnorteado, dolorido, e consumido pelo medo e pela tensão.
De repente, o caminhão parou. Alfredo ouviu o barulho das portas se abrindo, e foi tomado de pânico. 
Chegara sua hora: pressentia. Pensou em Luísa, em quanto tempo não dizia que a amava; não lhe fazia um agrado, um carinho, não saíam juntos... 

Pensou nos filhos, no pessoal da Distribuidora, na família que o aguardava lá em Pernambuco, no sítio que nunca iria desfrutar; que ficaria só nos seus sonhos, e começou a chorar. 

Não saberia dizer quanto tempo ficou ali, sozinho, à espera do que iria lhe acontecer.

terça-feira, 25 de abril de 2017

CONTO: O ÚLTIMO DIA - PARTE 3

Imagem da Net

Pegou a rodovia, em direção a uma cidade do interior, que distava cem quilômetros da capital. A estrada era boa, porém, havia um trecho perigoso próximo a uma favela da região.
Alfredo, olhos fixos na estrada, e pensamentos pululantes, lembrava de como tinha sido sua vida, e imaginava como seria dali pra frente, pois, existia a possibilidade de voltar para o Nordeste, para o sertão de Pernambuco, e viver na tranqüilidade de um pequeno sítio.
Era motorista há vinte anos. Depois de tanto se sacrificar em atividades penosas, insalubres e perigosas surgira uma oportunidade de trabalhar como condutor de veículos de uma grande empresa, e ele abraçara aquela oportunidade com muita determinação.
Havia conhecido Luísa aos 23 anos, e casaram dois anos depois. Luísa era moça prendada, e tornou-se uma excelente companheira, exímia dona de casa, e mãe dedicada e amorosa. Tiveram dois filhos, dois tesouros, por quem Alfredo e Luísa se sacrificaram muito, para dar uma boa educação. Investiram nos estudos, e não só, pois, a preocupação deles, como pais, era com a transmissão de valores, de virtudes nobres, de sentimentos elevados. E se sentiam vitoriosos, pois, Arthur e Cíntia, com vinte e sete e vinte e oito anos respectivamente, corresponderam aos seus objetivos. Eram formados, trabalhavam, e já haviam constituído suas próprias famílias.
- Missão cumprida - pensava Alfredo.
Ia tão absorto em seus pensamentos, e tão emocionado encontrava-se, que não percebeu a aproximação do carro branco. De repente, numa fração de segundo, foi interceptado, de súbito, e teve que frear bruscamente.