Pegadas de Jesus

Pegadas de Jesus

domingo, 30 de outubro de 2016

QUEM DISSE?






QUEM DISSE?

Quem disse que o passado não existe?
Se é minha história
guardada na memória...
Que aflora, docemente, redivivo,
No instante preciso.
Quem disse que lembranças,
e saudades incontidas,
não são emoções novas, não são vida?
Quem disse que algo se perdeu,
do tempo de outrora?
Tudo está em mim, mas urge agora,
que eu viva intensamente
o melhor momento
o impermanente
o dom maior
O presente.

Socorro Melo

30/10/2016

QUEM DISSE?






QUEM DISSE?

Quem disse que o passado não existe?
Se é minha história
guardada na memória...
Que aflora, docemente, redivivo,
No instante preciso.
Quem disse que lembranças,
e saudades incontidas,
não são emoções novas, não são vida?
Quem disse que algo se perdeu,
do tempo de outrora?
Tudo está em mim, e urge que agora,
eu viva intensamente
o melhor momento
o impermanente
o dom maior
O presente.

Socorro Melo

30/10/2016

sábado, 24 de setembro de 2016

IRMANADOS PELA DOR


A dor aproxima as pessoas, iguala, nivela, aliás, faz mais do que isso, a dor irmana. Na dor nos sentimos pequenos, frágeis, impotentes. Na dor, nós nos encontramos, somos nós mesmos.

É atordoante a dor do desamparo, É humilhante ser tratado com descaso. Ser apenas mais um número, um anônimo, sem direito a vez e a voz.

E de onde menos se espera, chega um alento, um sopro de esperança. Histórias de dor que são compartilhadas, experiências que são divididas, palavras de consolo, pequenas gentilezas, sorrisos sinceros. Todos irmanados pela mesma dor, pela mesma solidão, pelo mesmo medo do incerto.

Por vezes, um silêncio terrível envolve a todos, ou  uma sagrada expectação.

Passos lentos. Semblantes cansados. Olhares distantes. Impaciência contida.

Todos irmanados pela dor. Não se vislumbra alegria. No rosto de cada um, uma grande interrogação.

O frio cortante, o vento sibilante, a noite escura, dá arrepios naquele lugar. Cada qual procura se abrigar, como dá, mas parece que o tempo pára, não anda, faz complô com aquela noite escura, horrenda.

Aquela é uma página da vida que todos querem esquecer, quiçá, nunca mais escrever.

Mendigos. Mendigos de atenção. Sem nomes. Acompanhantes. Companheiros na dor. E na esperança.

A noite escura se esvai. Deixa marcas. Marcas profundas. Algumas para sempre. Outros esperam.

E mesmo num cenário tão hostil, numa sala de espera de um Setor de emergência de um Hospital Público, naquela noite escura, foi possível perceber  o brilho pálido de algumas estrelas, estrelas de bondade, de carinho, de cuidados, de atenção, que brotaram no meio da dor, de corações irmanados, pela desventura da vida, mas que pulsaram juntos, e juntos provaram o amargo fruto da tragédia humana.

Esta foi minha reflexão, do período de 36 horas aproximadamente, numa sala de espera, na Emergência de um grande Hospítal Público, com todas as suas nuances. De tudo, aprendi o quanto o sofrimento impacta o ser humano. Talvez por isso ele seja uma ferramenta que Deus usa para nos ensinar. Ele sabe tudo. Agora eu sei.


(Socorro Melo).



domingo, 18 de setembro de 2016

ADEUS


Não é fácil. Não é fácil dizer adeus. Não é fácil se despedir para sempre de alguém que fez parte da minha vida. De alguém que vi crescer, que fez parte das minhas brigas e brincadeiras.

Parece que ficou um buraco, como quando se retira uma peça de um quebra-cabeças. Nenhuma outra peça consegue tapar aquele buraco.

Parece que a pessoa se agigantou e de alguma forma se tornou mais presente na minha vida, só que de uma forma dolorida. Há uma inquietude, uma busca desassossegada. Tudo lembra a pessoa. Os lugares por onde pisou se tornam sagrados, as palavras que disse são lembradas com reverência, e nem consigo mais lembrar dos seus defeitos. Daria qualquer coisa para tê-la de volta, mesmo que fosse me contrariando.

Fico imaginando onde estará. Como tem se saído. A lembrança se mistura com a dor da perda. O sofrimento faz reconhecer-lhe a dignidade. E ela se agiganta. Se entranha nos pensamentos. Se olho o céu ou o sol ela está lá. Quase posso ouvir sua voz no rugir do vento...

Arrependo-me de não ter amado mais. De não ter dito tanta coisa. Ou de ter sido intransigente. Das críticas que fiz, da paciência que faltou, do sorriso que não dei...

Os dias se sucedem lentamente. O sol brilha e torna a se esconder. Procuro em vão por uma esperança no crepúsculo. Vejo e não vejo. Queria conhecer o seu mistério.

Pensei que tivesse perdido suas sementes, àquelas que o semeador jogou no sol do seu coração. Mas, não. Com muita surpresa pude vê-las brotar, tímidamente. Até senti vergonha de mim mesma. Talvez eu mesma não tenha produzido frutos tão doces.

Ah, mas é tão difícil saber que nunca mais... Não, nunca mais não, um dia... Naquele dia eterno...

Até lá ficarei imaginando como estará. Ficarei pensando na surpresa que teve em ser tão amado. E imaginando como foi tão bem acolhido. Sentirei saudades.

Eu sei, que conheceu antes de mim uma realidade para a qual eu me preparo, Fez a grande viagem para dentro de si mesmo, ao encontro da Verdade. Mas, não é fácil. Não é fácil dizer adeus. Nada consegue preencher o vazio que a sua partida deixou no quebra cabeça da minha vida. E eu nunca imaginei que pudesse doer tanto. Adeus, meu irmão! Que Deus te aconchegue no seu grande amor e inefável coração.

Socorro Melo

Em homenagem e memória do meu irmão José Célio de Melo
* 01/06/1971
+ 10/09/2016

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

ESTÍMULO PARA VIVER




Estímulo para viver? Em poucas palavras é ... Gostar da vida. Fazê-la acontecer. Descruzar os braços. Dar-lhe um sentido nobre. Conhecer-se. Expandir-se. Espelhar-se nos bons exemplos. Ter dinamismo. Ser participativo. Não ter medo de se expor. Ser livre para pensar. Interagir. Agir com humildade. Andar na luz.  Ler. Viajar. Deslumbrar-se com a natureza. Ser solidário. Prezar amizades. Cultivar gentileza. Ter senso de humor. Respeitar. Dar-se respeito. Observar limites. Ser prestativo. Apreciar arte e música. Orar. Meditar.  Trabalhar. Contribuir. Desapegar. Saber-se valoroso. Ter dignidade. Encontrar-se no “outro”. Amar. Servir. Ter fé e Esperança. Coração e olhar sinceros pra enxergar tudo azul.

(Socorro Melo)


Participação na festa de aniversário de 7 anos do blog http://www.idade-espiritual.com.br/. Parabéns Rosélia! 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

REFÚGIO EM DEUS - PROJETO ESTÁ TUDO AZUL?




Eu era só uma menina quando me falaram sobre Ele. Uma menina frágil, insegura e medrosa.

Então, disseram que o Pai Dele era rei, e Ele um príncipe.

Escutei atentamente, pois, histórias de reis e de príncipes me encantavam.

Todavia, Ele era um príncipe diferente. Era Todo Poderoso. Disseram até que Ele havia feito o mundo, e tudo quanto há nele. E que até mesmo eu, era obra sua.

Ficava a pensar nesse príncipe tão poderoso, e chegava a conclusão de que, se Ele havia me feito, obviamente me conhecia. Eu queria conhecê-lo.

Disseram também que Ele era muito bom. Que tinha um coração generoso, maior que o de mamãe, e que cuidava das pessoas com muito amor. E Ele é que supria as necessidades do mundo.

Que as pessoas O ofendiam muito, mas, Ele sempre perdoava.

Que morava num lugar bonito, iluminado, bem arborizado, onde a natureza era respeitada, onde se respirava ar puro, e as águas eram límpidas e abundantes. Que havia música naquele lugar, mesa farta, e as pessoas se respeitavam, trabalhavam juntas, em harmonia, e que grande era a alegria.

Mas, disseram que Ele era invisível. Alguns até já o tinham visto, há muito tempo.

Mas, isso não O impedia de se aproximar de quem o chamava. Ele estava sempre por perto.

Disseram que o jeito certo de chamá-lo era através do coração, do pensamento positivo, das palavras sinceras, dos atos e gestos de amor... Ele compreendia qualquer linguagem. E esse jeito certo, chamava-se oração.

Sem saber como e porque, comecei a confiar Nele.

Eu sempre tinha em mente os planos "B" e "C" para os momentos de apuros, e quando O conheci O incluí nessa lista. Quando todos os planos falhavam, eu O chamava.

Eu tinha tantos medos. Um deles era perder minha mãe. Eu não suportaria viver sem ela, não saberia. O outro era fazer prova de matemática.

Eu sempre conversava  ou pensava, na esperança de que Ele me ouvisse.

Um dia, me preparava para uma bendita prova de matemática, e me sentia angustiada por não saber de nada. Por mais que estudasse, me esforçasse, aqueles números e fórmulas não entravam na minha cabeça. Eu não sabia de absolutamente nada.

E eu O chamei. E implorei que me ajudasse. E só sei dizer que direi boa nota na prova, que fiz de forma honesta, sem saber de nada. E esta foi a minha primeira experiêcia com Ele, que passou a ser meu fiel escudeiro.

Fiquei ternamente agradecida, e enternecida. Passei a procurá-lo mais e fui descobrindo o quanto é belo, e... me apaixonei.

Passei a buscá-lo mais e mais, agora movida pela fé, pela confiança. Ele passou a ser realidade.

Fui crescendo e Ele crescendo comigo. E sempre me ajudando a vencer as dificuldades, que agora eram bem mais significativas do que uma prova de matemática.

Dias tristes vieram: de indignação, injustiças, escassez, discórdias, estresse, decepções, frustrações, cansaço e muito, muito medo, no entanto, sempre que falhavam os planos "B" e "C", era Nele que eu procurava refúgio.

Fui infiel, negligenciei, me afastei, O ofendi , me esvaziei... E Ele me levantou. É meu amigo, apesar de mim.

A cada dia, a cada nova busca, Ele me surpreende e me assombra, diante da verdade que Ele é.

E assim vou vivendo, agora chegando ao outono da vida, fazendo Dele o meu refúgio, a minha fortaleza, e socorro bem presente nas horas amargas, como bem disse o salmista.

Ah, e plagiando o que disse um amigo, descobri que Ele é leve e ri! E com Ele tudo é azul.

(Socorro Melo)

Suas palavras me encorajam:

" Coragem, Sou Eu, não tenhais medo" Mt. 14,27.


Esta é a minha participação na Blogagem Coletiva de aniversário do Blog http://www.idade-espiritual.com.br/
da amiga Rosélia, que celebra 7 anos de muito amor e espiritualidade. Parabéns, Rosélia! Você é uma luzinha azul que vai norteando vidas no seu Blog.


segunda-feira, 18 de julho de 2016

POR QUE EU?


O dia 18 de setembro de 2006 teria sido um dia comum para Anete, daqueles em que se sai da cama com a impressão de que se continua dormindo, e ao longo do dia realizam-se as mesmas atividades de rotina... Não fosse pela desventura de sofrer aquele assalto, à noite, nas proximidades de sua casa.

Um assalto igual a tantos outros, mas que marcaria para sempre a sua vida. Não pelos pertences que perdeu, ou pelo constrangimento de enfrentar burocracia para retirar novos documentos, ou pelo medo da violência, mas, pelo que viria a representar mais tarde.

Anete se sentiu ultrajada quando o ladrão lhe abordou, arrancando-lhe a bolsa, porém, nada de grave lhe aconteceu. Mas, em casa, pôs-se a pensar no caso, revoltada, e reviveu todo o drama, e naquela noite dormiu muito mal.

No dia seguinte, chegou ao trabalho abatida, e compartilhou com os colegas o que lhe acontecera na noite anterior. Sua chefa, vendo toda aquela revolta, disse-lhe: vão-se os anéis e ficam os dedos.

Estava com viagem marcada para a semana seguinte: iria, juntamente com sua Chefa, para Manaus, onde ministrariam um treinamento para algumas unidades daquela região. Era sua primeira viagem pela Instituição.

Começara naquele trabalho há pouco tempo, mas já se sentia acolhida. Harmonizara-se com os colegas, e nutria grande respeito e admiração pela Chefa.

Entanto, aquele assalto viria a mudar os seus planos de viagem: a chefa resolvera levar consigo a Claudinha, vez que Anete estava sem documentos, e envolvida numa verdadeira maratona de providências, em virtude do famigerado assalto.

Embora triste Anete achou bastante pertinente a resolução da Chefa. Em outubro haveria outro evento, numa outra região, e até lá, ela já teria organizado sua vida.

Todavia, o que aconteceu depois, causou um impacto de proporções tão gigantescas na vida de Anete, que passou a funcionar como um divisor de águas.

Na noite do dia 29 de setembro de 2006, o Jornal Nacional da TV Globo, em edição extraordinária, noticiava que o Boeing 737-800 da empresa Gol Transportes Aéreos, desaparecera dos radares aéreos, por volta das 17 horas, no trecho de Manaus para Brasília.

Naquele instante, Anete que estava debruçada sobre livros de Direito Civil, estudando, saiu em direção à sala da TV, atraída pela música de chamada do noticiário, para ouvir a notícia extraordinária. À medida que escutava, sentia suas pernas tremerem, em virtude da possibilidade das duas amigas estarem a bordo da aeronave em questão, já que as mesmas se deslocavam de Manaus para Brasília. Depois do noticiário, fez contato com um colega de trabalho, para investigar sobre o assunto. Algumas horas depois constatou a fatalidade. Mas, restava a esperança de que pudesse haver sobreviventes.

A Chefa e Claudinha, voltavam de Manaus para Brasília, do referido treinamento, no dia 29 de setembro de 2006, no fatídico vôo 1907 da GOL, que se chocou com o jato Legacy. Os destroços do avião foram encontrados em uma área densa de floresta amazônica, na Serra do Cachimbo, a duzentos quilômetros de Peixoto de Azevedo, na região norte do estado do Mato Grosso. E no dia seguinte, 30 de setembro, o Brasil e o mundo tomaram conhecimento do acidente aéreo, classificado como o segundo maior do Brasil.  Não houve sobreviventes. Foi uma tragédia singular.

Anete sentiu grande pavor, diria que, sem precedentes. Não conseguia raciocinar. E chorava descontroladamente. Naquele dia, a impressa dava ao mundo os detalhes do acidente. Na TV, o horror estampava-se, principalmente, nos rostos de familiares e amigos.

Lembrando-se de que até poucos dias, estava escalada para essa viagem, que culminara no terrível acidente, Anete ficava perplexa. Se não fosse pelo assalto, que tantos transtornos lhe trouxera, seria uma das vítimas, assim como foram a Chefa e Claudinha. O assalto salvara sua vida, que ironia!

Não conseguia entender. Buscava em vão uma resposta, mas, sabia que jamais iria tê-la. A vida fora generosa, poupara-lhe do acidente, porém, questionava-se constantemente: por que eu?

E enquanto sentia a dor da perda da amiga, de longa data, do tempo da faculdade, e também, recentemente, sua colega de trabalho, percebia que seu interior se movia tal qual um redemoinho.

Claudinha morreu no meu lugar – pensava. Por que? Era tão jovem, bonita, inteligente, e tinha tantos planos... Pareceu-lhe que ela não queria ir naquela viagem, porém, não fez objeção. Era participativa, e sabia trabalhar bem em equipe.

Deus do céu, onde encontrar forças para enfrentar águas tão turbulentas? – pensava Anete. O ambiente na Instituição, naqueles dias, era desolador. Não se falava mais em outra coisa, tudo girava em torno do acidente. A Chefa, além da sua amizade pessoal, do seu carisma, deixava também uma grande lacuna na Instituição, pois, sempre prestara serviços de qualidade, e dir-se-ia, que seu passe valia ouro.

E Anete, emocionalmente abalada, sentia volverem-se em si mesma as mais pungentes sensações. Por que eu? Era a pergunta que não queria calar. E freqüentemente recordava do sorriso doce, e do semblante terno de sua amiga Claudinha. E as lágrimas se faziam presentes, companheiras, e fiéis.

Muito tempo se passou para que as águas turvas finalmente se abrandassem. E durante esse tempo, Anete buscou encontrar-se consigo mesma, buscou serenidade, buscou paz, e foi se fortalecendo, e percebendo os vislumbres de luz, e ouvindo uma voz quase inaudível, do que mais tarde ela entendeu, ser um chamado de Deus. E se deixou seduzir.

E hoje, continua peregrinando, pela estrada da vida, seguindo a voz do seu coração, entregando-se com maior confiança a Deus, mesmo sem entender-lhe os desígnios, e colhendo a cada dia, os frutos de renovadas atitudes, que têm lhe garantido a consciência da fugacidade da vida, e a grandeza do momento presente.

Deus sabe de todas as coisas, e não cai uma folha de uma árvore sem a sua permissão.  Por que eu? Não sei, ainda reflete Anete, mas, tem uma vaga impressão de que Deus tinha para si outros planos, quem sabe servir-lhe mais de perto, como uma ovelhinha de Deus, como chamava Francisco de Assis, a um irmão bem querido.

Baseado em fatos reais. 

Por Socorro Melo – 19/01/2012.


terça-feira, 12 de julho de 2016

INCOMODADA


Eu, sinceramente, me considero uma pessoa atualizada, instruída e moderna. Penso que não há mais como não ser moderno nesse tempo em que vivemos, nessa dinâmica que é a vida cotidiana.

Procuro mudar meus paradigmas constantemente. Procuro respeitar a opinião e as escolhas dos outros. Aceito críticas, desde que sejam positivas, que tenham o intuíto de me transformar numa pessoa melhor.

Mas, também tenho minhas críticas. Não suporto e não sei lidar com determinadas coisas que são contra os meus valores,  tais como:

Esse "lixo" que é chamado de música e que  tem se espalhado como uma praga. Uma coisa sem ritmo, sem poesia, sem beleza, sem melodia, somente puro erotismo e barulho ensurdecedor.

Pais que ensinam e/ou incetivam crianças a dançarem essas músicas vulgares.

Meninas na idade escolar e das brincadeiras, maquiadas como se fossem mulheres adultas, muitas até, com cabelos pintados, na mais tenra idade.

Adolescentes ingerindo bebidas alcóolicas, em baladas até altas horas da noite, desacompanhados dos pais ou responsáveis.

Roupas vulgares, especialmente em lugares inapropriados.

E tantas coisas mais...

Não consigo achar normal tais procedimentos. E sei que tudo isso traz consequências desastrosas, tanto para as pessoas como para a sociedade. 

Penso que a liberdade é  nosso maior dom, mas, tudo que se faz em excesso tem repercussões, e às vezes, podem não ser tão positivas. 

Podemos aprender com os erros, mas, se os evitarmos sofreremos bem menos. 

Cabe aos pais cuidar, orientar e servir de exemplo. 

Não vejo os pais modernos muito preocupados em transmitir valores, salvo as raras exceções. Percebe-se muita acomodação e liberalismos. A educação deixa muito a desejar. Não se tem preparado as crianças e os jovens para a vida, para a decência.

A vida é implacável. Cedo ou tarde serão cobrados. E ninguém pode responder por nós, nem nos livrar de tudo. É preciso saber viver e ensinar aos mais jovens essa bela arte.

Não acho que sou retrógrada. E se for, é problema meu. Mas, não consigo entender certas coisas.

Tenho pena dos jovens e das crianças. Eles são vítimas desse mundo doido.

E tenho dito...

quinta-feira, 30 de junho de 2016

DUDA

  
Quando perguntei para uma pessoa do lugar onde morava Duda, ela ficou surpresa e perguntou:

-          A deficiente? De onde você conhece? – Perguntou. E indicou-me o caminho.

Seguimos, pois não estava só, pelas ruas estreitas da Vila, e a poucos metros localizei a casa da minha amiga. Fomos recebidas com alegria efusiva, característica bastante peculiar a Duda. Conversamos por longo tempo, e quanto mais eu entrava no universo dela, mais intrigada eu ficava.

Olhando para o seu rosto, iluminado por um sorriso espontâneo, recordei da nossa infância. Duda era bem diferente de mim, mas, sempre fora uma grande amiga. Eu gostava de estudar, era tímida, calada, comedida, e Duda, o oposto. Não gostava de estudar, era extrovertida, tagarela, e sem limites.

Lembrei de uma de suas maiores travessuras: morávamos bem perto uma da outra. A minha casa situava-se numa rua transversal à rua em que ela morava. Numa tarde de verão, quando o sol já declinava no horizonte, ouviu-se grande burburinho na rua. Da minha janela, observei grande movimento à frente de sua casa, e corri até lá, para ver o que acontecera.

O lugar onde morávamos era um pequeno povoado, um bairro afastado da cidade, cerca de cinco a sete quilômetros. E imagino que metade da população se postava diante da casa de Duda, naquela tarde.

O que aconteceu? – perguntei a alguém. E responderam-me que pela terceira vez, naquele dia, eram jogadas pedras sobre o telhado da casa. A família já havia investigado, procurado, e não tinha a menor idéia de onde pudessem vir as misteriosas pedras.

O povo do interior nordestino é chegado a crendices, e logo se instalou a idéia de que havia por lá uma alma penada, jogando pedras sobre a casa de Duda. É assombração, diziam. Mandem chamar o padre, ou alguém para benzer a casa. Naquela tarde as pedras não incomodaram mais, porém, no dia seguinte, o pesadelo voltou. E assim, se sucedeu por vários dias, até que, depois de acurada vigilância, descobriu-se a origem das pedras voadoras: Duda. Essa aventura rendeu-lhe uma boa surra, no entanto, não seria uma coisinha assim, sem importância, que lhe tiraria o gosto pelas travessuras.

E Duda aprontou todas, sempre com um sorriso enorme nos lábios, e uma indiscrição fora do comum. Era dinâmica, serelepe. Gostava de correr, de pular, de cavalgar...

Um dia, voltávamos do açude, carregando latas d’água na cabeça. Quando estávamos bem próximas de nossas casas, eu perdi o equilíbrio e a minha lata caiu, derramando toda água, obviamente. A casa dela estava a poucos metros, porém, ela rindo descontroladamente da minha desventura, derramou a água de sua lata, e voltou comigo ao açude. E era assim. Com Duda, as surpresas eram incessantes.

Saí do meu devaneio, do turbilhão de recordações, e vi Duda ali na minha frente, agora adulta, agora deficiente. Passados tantos anos, nos encontrávamos de novo. Todavia, o que me intrigava, era a força que tinha a minha amiga. Foi amputada ainda jovem, devido a um problema de saúde que desconheço, pois nunca lhe perguntei sobre isso, depois, lutou ferrenhamente contra um câncer, e ganhou a luta, e por fim, quando cheia de esperanças se preparava para colocar a prótese da sua perna, que era o seu grande sonho, sofreu um terrível acidente, que machucou seriamente a perna sã.

Duda encarou e encara toda essa, digamos, desventura, com muita garra e determinação. Não se lamenta, não se atormenta, e não se diminui. É cheia de esperanças, de sonhos, e faz a vida acontecer. Conhece suas limitações, porém, não se comporta como um ser imprestável, inútil, pelo contrário, é sinônimo de fortaleza, de alegria, e de coragem.

Cuida da sua casa com esmero. Ela mesma desempenha todas as atividades domésticas: lava, passa, cozinha, limpa... E administra suas parcas finanças e seus interesses com sabedoria. Em suma, um exemplo, uma lição de vida.


Penso que toda energia que existia na Duda criança foi transportada para a Duda adulta, de forma admirável. Quando a vi pela primeira vez, na condição de deficiente, de cadeirante, fiquei penalizada, porém, em poucos minutos, senti vergonha de mim mesma, diante da grande lição de vida que ela me transmitia, sem palavras, mas com  atitudes.

Por Socorro Melo

domingo, 12 de junho de 2016

O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS



Contei meus anos e descobri que terei 
menos tempo para viver daqui 
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me como aquele menino que
recebeu uma bacia de cerejas.As primeiras,
ele chupou displicente, mas percebendo
que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam
egos inflamados. Inquieto-me com invejosos
tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis,
para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias
que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres
de pessoas, que apesar da idade cronológica,
são imaturos.

Detesto fazer acareação de desafetos
que brigaram pelo majestoso cargo de secretário
geral do coral. As pessoas não debatem conteúdos,
apenas os rótulos.

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos,
quero a essência, minha alma tem pressa.

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado
de gente humana, muito humana;
que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora,
não foge de sua mortalidade, caminhar perto de
coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencal!.

Mário de Andrade