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O dia mal clareava e lá iam elas, rumo ao barreiro do sítio Batinga. Juntavam-se, ao cantar do galo, debaixo do pé de jasmim, no fim da rua. Naquela hora, também os agricultores já estavam de pé, e selavam seus animais, arrumavam suas carroças, e se dirigiam para a lida.
Caminhavam a passos largos pela estrada de terra, onde aqui e ali se deparavam com touceiras de flores silvestres. Lá adiante, de um lado e de outro da estrada, se viam grandes pés de aveloz, e num determinado trecho, as árvores se juntavam nas copas e formavam um imenso túnel, sombreado.
Em cima de rodilhas, equilibravam nas cabeças suas enormes trouxas de roupa suja, e nas mãos, levavam bacias de alumínio, bolsas com sabão e água sanitária, a merenda e a quartinha de água potável.
Por vezes caminhavam caladas, e só se ouvia o som de seus passos, pisando nas pedrinhas da estrada, em outros momentos, falavam seriamente, e confidenciavam suas mazelas, e seus temores. Mas, normalmente, eram alegres, e corriam as estradas cantando refrões de algumas músicas populares.
No meio do caminho havia um riacho, de águas salgadas, e elas, retiravam as sandálias dos pés, e o atravessavam pelo leito, já que não confiavam nas pedrinhas escorregadias que serviam de passarela para os que não queriam se molhar.
Depois do riacho, o caminho se estreitava, e elas prosseguiam agora em fila indiana. Endureciam a cerviz para se firmar, e manter a salvo a carga que levavam na cabeça. Riam de suas dificuldades, quando se sentiam enlaçadas por arbustos espinhosos, ou quando os insetos as rodeavam, já que as duas mãos estavam ocupadas. E quando finalmente chegavam ao lugar de destino, depois de caminharem de trinta a quarenta minutos pelo mato, só avistando, vez por outra, pequenos casebres a certa distância, paravam para abrir a pequena porteira, e continuavam ainda em fila indiana, em direção ao barreiro.
O barreiro era pequeno, e estava coberto por uma vegetação que elas chamavam de pasta. Arriavam suas cargas, e cada uma se dirigia a uma pedra, em volta do barreiro, munidas da roupa suja, e da bacia de alumínio, depois de pendurarem nos galhos das árvores, a singela merenda, e encostarem a quartinha ao pé das árvores.
Afastavam a pasta, e enchiam, com cuias, as suas bacias, e debruçavam-se sobre a roupa, molhando, ensaboando, esfregando, e batendo na pedra, até obterem a limpeza satisfatória, e depois as estendiam por cima de vegetação rasteira, até a hora do enxágüe.
Enquanto lavavam a roupa, distraíam-se entoando hinos religiosos...
“O meu coração, é só de Jesus”.
“A minha alegria, é a santa cruz...”.
“Vitória, tu reinarás”.
“Oh cruz, tu nos salvarás...”.
Quando terminavam a primeira parte, e se via ao redor do barreiro um imenso colorido, de roupas estendidas por sobre a relva, elas encaminhavam-se para debaixo das árvores frondosas, lá onde haviam deixado a merenda, e se deitavam para descansar. Neste intervalo, cochilavam, conversavam, trocavam idéias, contavam seus sonhos, falavam dos maridos, da família, mas, principalmente da dificuldade financeira, pois, vivia-se um tempo de recessão, de carestia, e de uma seca cruel.
Não conheciam a situação econômica do país, e nem sabiam o que era isso. Os meios de comunicação eram escassos, e na vila onde moravam, só existia um rádio, de propriedade de seu João, e apenas seus maridos, tomavam pé da situação: era assunto de homem. Entanto, sentiam na pele os efeitos da inflação. Na vila, a ocupação principal dos moradores era a agricultura, a produção da farinha de mandioca, e a fabricação de panelas de barro, que eram vendidas na feira da cidade.
Tinham necessidades, mas, ninguém passava fome, pois, quem possuía mais, dividia com os que não tinham nada, e assim, se colocava tudo em comum.
À hora da merenda, abriam suas mochilas bem alvas, bordadas à mão, que envolviam em sacos plásticos, e retiravam de dentro, pedaços de pão dormido, bolacha seca, rapadura, mata fome, bananas, laranjas, e carne seca com farinha. A água que traziam na quartinha era o acompanhamento do saboroso alimento que tomavam, depois de agradecerem a Deus por ele.
O sol já se fazia alto, quando elas voltavam às suas atividades. Retiravam todo o sabão das roupas, torciam, e novamente estendiam nas árvores, e aguardavam que secassem, para finalmente voltarem para casa. E quando voltavam, cansadas e caladas, com o sol queimando-lhes a pele, já era bem tarde. E faziam seus planos, para na próxima semana se encontrarem, e voltarem. E longe de ser um sacrifício, aqueles eram momentos de interação e de fraternidade.
E dona Maria sorriu, voltando de suas lembranças, embalando-se na cadeira de palhinha, e observando a filha retirar da máquina de lavar, a roupa quase seca que colocara há tão pouco tempo, e que não lhe impedira de realizar outras atividades. Que diferença!- Pensou. A modernidade, de fato, simplificou muita coisa.
Por Socorro Melo
Projeto Cata-Vento









