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Queridos amigos e amigas,
Ausentei-me por um tempo, em virtude de alguns probleminhas de ordem pessoal, que ainda permanecem, mas, farei o possível para retomar meus contatos, minhas visitas, a cada um de vocês, na medida do possível. Agradeço pela gentileza de virem aqui, me visitar, o que me deixa imensamente feliz. Valeu, gente!
GARÇAS
Eu passei rapidamente por cima da ponte, para me livrar do cheiro fétido que exalava do canal (esgoto) abaixo. Com a palma da mão cobri o nariz, e os pensamentos pulularam ressaltando a indignação pelo desrespeito à natureza, ali, de forma tão explícita, naquela podridão a céu aberto.
Olhei de soslaio por sobre a ponte, e vi, em meio à imundície, algumas graciosas garças, que se moviam lentamente, parecendo flutuar, e dando certo encanto aquele lugar, enquanto bicavam a cata de alimentos.
Parei. Era inacreditável ver animais tão delicados, esguios, elegantes, e de uma brancura tão intensa, como as garças, num ambiente tão sujo e pútrido. Mas, elas estavam lá, em meio aos porcos, urubus, lixo e fumo.
Prossegui o meu caminho, porém bem devagar, e pensativa. Pensava na imagem bela das garças, destoando, naquele quadro triste de descaso com a natureza.
Sempre as via em lagos, barragens, açudes, enfim, em águas limpas, claras, e causou-me certa surpresa vê-las num esgoto tão imundo. Talvez a necessidade as obrigasse, mas, ainda assim, elas não perdiam o porte, a beleza, o referencial.
Um novo pensamento se fez em minha mente, bastante reflexivo, tendo em vista o exemplo das garças: quantas pessoas estariam sobrevivendo em ambientes inapropriados? Sem estrutura e desprovidas de todas as condições básicas?
E outras tantas, boas, honestas, bem intencionadas, por certo, convivendo lado a lado com o terror, com a violência, com o consumo exacerbado de drogas, de todos os tipos, com a prostituição, com o aliciamento de menores para o crime e o tráfico, sem perspectivas de mudanças, sem apoio, mas que por necessidade se submetem, e arregaçam as mangas, e lutam, de sol a sol, num processo doloroso e contínuo, tentando viver acima da tragédia humana, ajudando-se mutuamente, buscando incutir nos mais jovens e nas crianças, a esperança que eles mesmos, por vezes, já perderam, de uma vida igualitária, menos sofrida, onde os direitos constitucionais fossem respeitados, e fossem, de fato, adquiridos por eles, para que pudessem passar da condição de excluídos, para inseridos, na sociedade, deixando para traz as margens, com suas injustiças, revoltas e dores.
Vez por outra ouvimos depoimentos, e vemos histórias, ou episódios, da vida de pessoas que vivem à margem da sociedade, e que nos trazem exemplos belíssimos de superação, de fraternidade, de coragem, e de grandeza de espírito.
Essas pessoas são como as garças, que mesmo vivendo em lugares tão hostis, inóspitos até, amassando o pão que muitas vezes nem o diabo quer comer, não perdem o seu porte, ou seja, a sua autenticidade, pois têm dentro de si um valioso tesouro: a fé inabalável em Deus, e na vida.
E essa fé é que as move, e ajuda-as a remover montanhas, obstáculos à primeira vista intransponíveis, tornando-as diferentes, guerreiras fortes e corajosas, que mesmo convivendo com a degradação humana, se sobressaem, e brilham, e destoam do ambiente, porque o ambiente não é digno delas, todavia, acreditam que estão ali para transformar, com as suas virtudes, especialmente a humildade e a caridade, pois, sobreviver no submundo, e na pobreza extrema, e manter-se íntegro, requer, acima de tudo, grandeza de espírito.
E chego à conclusão, que essa sabedoria é a marca de Deus, e que elas, as pessoas, a exemplo das garças, são escolhidas por Ele, para dar sinal de sua presença, e do equilíbrio da vida, mostrando que é possível encontrá-lo, até mesmo no caos.
Por Socorro Melo